Começa mais uma semana e a agenda econômica abre, como sempre, com a encenação litúrgica do Boletim Focus. Cem economistas de bancos e consultorias mandam suas projeções para o Banco Central, o Banco Central tabula, publica, e a imprensa econômica trata o resultado como se Moisés tivesse descido do Sinai com a tábua da inflação esperada. Quer dizer, é o mesmo grupo de pessoas que errou a inflação de 2021, errou a de 2022, errou a de 2023, e que agora vai chutar a de 2026 com a mesma cara séria de quem está fazendo ciência. Se o Focus fosse um cassino, já teria sido fechado por má reputação atuarial.

O detalhe que ninguém comenta é a relação incestuosa entre quem responde o Focus e quem se beneficia da política monetária que o Focus supostamente prevê. Os economistas-chefe que mandam suas projeções trabalham exatamente nas instituições que financiam o Tesouro, que ganham com o spread da Selic alta, que cobram tarifas para administrar a dívida pública e que vendem fundos DI para o varejo aterrorizado pela inflação. Olha, me diz uma coisa, alguém realmente acredita que o sujeito que vive de juros vai projetar juros baixos? O Focus não é um termômetro, é um espelho onde o sistema financeiro se admira e depois manda a foto para o BC com legenda de profecia.

E aí entra o ponto que ninguém da Faria Lima quer encarar de frente. Inflação não é praga bíblica, não é fenômeno meteorológico, não é culpa do clima, da guerra na Ucrânia ou do preço do tomate. Inflação é, sempre foi e sempre será o resultado matemático de governo gastando mais do que arrecada e financiando o buraco com expansão monetária e dívida que o próprio Banco Central acaba ajudando a rolar. O resto é literatura. Quando o Focus projeta inflação de 4 e pouco para o ano que vem com déficit primário rasgando o teto e dívida bruta passando de 80 por cento do PIB, o que ele está realmente projetando é fé, não cálculo.

Há uma comédia adicional no fato de que o BC usa o Focus como insumo para decidir a Selic, e os bancos que respondem o Focus usam a Selic decidida pelo BC para precificar seus produtos. É um circuito fechado, uma serpente engolindo o próprio rabo monetário, e no meio do círculo está você, contribuinte, pagando juro real de quase 9 por cento para sustentar uma máquina pública que consome metade da renda nacional para devolver serviço público que envergonharia uma república bananeira dos anos 50. O sujeito que paga IPVA, IPTU, ICMS, ISS, IR, INSS, PIS, COFINS e ainda inflação de 5 por cento ao ano não tem inflação esperada, tem confisco programado.

O que o Focus deveria publicar, se fosse honesto, era uma única projeção semanal: quanto do seu salário vai evaporar nos próximos doze meses por decisão deliberada de Brasília. Mas isso não vende relatório de research, não justifica cargo de economista-chefe e não dá manchete simpática no telejornal. Então segue o teatro, com gravata, gráfico em PowerPoint e cara de estatística. Enquanto isso, a impressora roda em silêncio, o Tesouro emite título atrás de título, e o brasileiro descobre, no caixa do supermercado, que a inflação real nunca esteve dentro da meta, esteve dentro do bolso dele.

A pergunta que o boletim de hoje deveria provocar não é se a mediana subiu dois centésimos. É outra, e bem mais incômoda: por que continuamos fingindo que prever a doença é o mesmo que tratá-la, quando todo mundo sabe quem é o vírus, onde ele mora e quem assina o cheque para mantê-lo vivo. Inflação não se prevê, se decreta. E quem decreta tem CEP em Brasília, não em planilha de banco.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.