Olha que coisa fascinante. O Vietnã, aquela nação onde o Partido Comunista decide o que se planta, o que se publica, o que se reza e o que se pensa, acordou na semana passada com a vontade súbita de libertar as mulheres do confinamento doméstico. Aprovaram lei dizendo que marido não pode mais obrigar esposa a ficar em casa. E o ocidente progressista bate palmas, comovido, sem perceber que o aplauso vai para o carcereiro que decidiu pintar uma das celas de rosa.
Quer dizer, o mesmo regime que controla onde você mora, onde você trabalha, o que você fala em público e o que sua empresa pode importar, agora quer convencer o mundo de que está preocupado com a autonomia individual da mulher dentro de casa. É como criminoso sequestrar família inteira no porão e, depois de uma semana, abrir generosamente a porta do banheiro para que a refém tenha privacidade ao escovar os dentes. Aplaudir isso como avanço civilizatório é confundir migalha com banquete.
O ponto que escapa aos colunistas encantados é simples: liberdade não é cardápio do qual o Estado serve uma porção por vez, conforme a estação política. Ou a pessoa é dona de si, e aí decide onde mora, com quem se casa, o que produz, o que consome e o que pensa, ou ela é tutelada, e aí cada concessão pontual é apenas teatro do tutor benevolente. Não existe meia liberdade, do mesmo jeito que não existe meia gravidez. O regime que precisa decretar que mulher pode sair de casa é o mesmo que decretará amanhã, com a mesma autoridade, que ela precisa sair, ou que precisa entrar, ou que precisa votar no candidato certo.
E siga o dinheiro, sempre. Por que essa lei agora? Vietnã está cortejando capital ocidental como nunca, disputando com a Indonésia o papel de nova fábrica do mundo no pós-China. Multinacionais europeias e americanas têm comitês de ESG que precisam de carimbo de progresso social para liberar investimento. Decreto de igualdade doméstica custa zero ao Estado e rende bilhões em fundos de pensão suecos convencidos de que o dinheiro deles está promovendo justiça. É marketing geopolítico vestido de revolução, e o consumidor incauto é o intelectual ocidental.
O que ninguém quer enxergar é que a tirania doméstica que essa lei pretende combater floresce justamente onde a tirania política sufoca a sociedade civil. Onde não há propriedade privada protegida, mulher não tem como sair de casa porque não tem onde trabalhar livremente, não tem como abrir negócio sem padrinho do Partido, não tem como divorciar sem aprovação do comitê local. A cela conjugal é apenas o último cômodo da prisão maior. Pintar a porta dessa cela com tinta de igualdade não muda o fato de que o prédio inteiro é cadeia.
Há ainda a ironia mais profunda, aquela que ninguém comenta nas redações chiques. Foram justamente as sociedades que protegeram propriedade, mercado livre e direitos individuais que produziram, organicamente, sem decreto nenhum, a maior libertação feminina da história humana. Não houve lei mandando a mulher americana dos anos 1950 trabalhar fora, abrir conta no banco, dirigir, votar, escolher marido. Houve mercado, prosperidade, eletrodomésticos, anticoncepcional, oportunidade. A liberdade brotou do solo livre. Já a liberdade decretada por regime totalitário tem a mesma consistência da flor de plástico: imita a coisa, mas não tem raiz, não tem cheiro, e some no dia em que o decorador resolver mudar a sala.
A pergunta que fica, e que o Valor não fez porque não sabe fazer, é esta: quanto vale uma liberdade concedida por quem tem o poder de revogá-la amanhã? Resposta honesta: vale exatamente o tempo que durar a conveniência política do concedente. E é por isso que liberdade de verdade não se pede, não se negocia e não se agradece. Arranca-se, com propriedade, com mercado, com instituições que limitam o poder de quem governa. O resto é teatro, e o Vietnã acaba de subir ao palco.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.