A notícia é quase indecente de tão simples. A Agropalma, maior produtora de óleo de palma do país, projeta 20% a mais nesta safra depois que o El Niño de 2023 torrou os cachos, secou a polpa e derrubou o rendimento do ciclo passado. Nenhum ministério salvou ninguém, nenhum programa federal com nome pomposo foi lançado, nenhuma linha de crédito subsidiada apareceu com fanfarra. O que houve foi o de sempre quando o produtor é deixado em paz: perdeu, apanhou, replantou, ajustou o manejo e voltou a entregar. É a economia real funcionando enquanto o país inteiro finge que economia é algo que se decide em plenário.

Repare no detalhe que ninguém no jornalão vai sublinhar. A empresa absorveu no próprio caixa o baque de um evento climático global, sem repassar a conta para o contribuinte via socorro emergencial, sem chorar em audiência pública, sem exigir moratória de dívida. Suportou o prejuízo, refez o planejamento, esperou o ciclo biológico e agora colhe o resultado. Compare com qualquer setor que vive amamentado no colo do BNDES e você entende por que uns produzem e outros produzem discurso. Quem arrisca capital próprio calcula; quem arrisca capital alheio delira.

E vale olhar para o que não se vê nessa história. Cada real que a Agropalma reinvestiu na replantação saiu do bolso de acionistas, fornecedores e empregados que abriram mão de dividendo, prazo e reajuste no ano ruim. Se o governo tivesse entrado com o famoso "apoio ao setor", esse mesmo dinheiro teria vindo do imposto de alguém que jamais comerá dendê, jamais verá um cacho, jamais pisará no Pará. A dor localizada teria virado prejuízo espalhado, e o preço do óleo, em vez de sinalizar escassez e atrair investimento, teria mentido para o mercado inteiro. É por isso que safra ruim, doída como é, cumpre função: expulsa o ineficiente, força o competente a se reinventar e reorganiza a produção sem precisar de comitê.

Tem também o silêncio elegante sobre o clima. Em 2023, quando o El Niño castigou, foi manchete de catástrofe permanente, prova cabal de que o fim do mundo estava marcado para a próxima terça. Dois anos depois, o ciclo vira, a produtividade sobe 20% e ninguém escreve reportagem sobre a resiliência da natureza tropical nem sobre a capacidade de adaptação de quem trabalha a terra. A narrativa só serve quando serve. Chuva boa não vende assinatura, colheita farta não rende ministério novo, produtor que se vira sozinho não justifica orçamento. Por isso a boa notícia agrícola sempre sai na página oito, em corpo oito, entre o classificado e a previsão do tempo.

Enquanto isso, o mesmo Brasil que colhe dendê no Pará sem ajuda estatal debate em Brasília se cria taxa sobre exportação, se aumenta alíquota de reforma tributária sobre alimento processado, se enfia mais uma exigência de rotulagem, mais um selo, mais um relatório de sustentabilidade que ninguém lê e todo mundo paga. O produtor que sobreviveu ao El Niño agora precisa sobreviver ao gabinete. E o gabinete, ao contrário do clima, não vira ciclo, não passa, não corrige sozinho. Fica.

Fica a lição que o país insiste em não aprender. Onde o Estado não chegou, a coisa se recompôs em dois anos. Onde o Estado chega, dura décadas sem se resolver. A palma cresceu porque ninguém plantou decreto no lugar da muda.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.