A Air Canada divulgou números do primeiro trimestre de 2026 acima das projeções e o papel respondeu na hora, com investidor correndo para comprar o que poucos meses atrás era visto como caso perdido do setor aéreo norte-americano. Quem acompanha aviação comercial sabe o tamanho do feito, porque companhia aérea é talvez o negócio mais ingrato que o capitalismo já produziu, margem fina, custo de combustível travado em commodity volátil, sindicato pesado, frota financiada a juros que agora não são mais de pandemia, e ainda por cima cliente que reclama de tudo e paga o mínimo possível. Bater consenso nesse ambiente não é sorte, é gestão.
E aqui mora a piada que ninguém quer contar em voz alta. Enquanto a canadense, operando num mercado que pelo menos finge ser competitivo, ajusta rota, corta gordura, renegocia contrato e entrega resultado, a vizinha do sul brasileira segue na novela eterna do tapinha nas costas estatal, com BNDES de plantão, perdão de dívida tributária, parcelamento generoso de combustível, garantia de slot em aeroporto que deveria ser leiloado e aquela conversa fiada de que aviação é setor estratégico que precisa de proteção. Estratégico para quem, exatamente. Para o passageiro que paga a passagem mais cara do continente ou para o lobista que mora em Brasília fazendo a ponte entre acionista e ministro.
Quando a Air Canada sobe na bolsa porque cortou custo e melhorou ocupação, o sinal que o mercado manda é cristalino, recompensa quem produz valor, pune quem destrói. É um mecanismo brutal, sim, mas é o único que funciona. A alternativa, que insistem em vender por aqui como se fosse novidade, é sempre a mesma, governo escolhe vencedor, vencedor agradece com cargo e doação, contribuinte paga a conta sem nunca ter sido consultado, e dez anos depois a empresa quebra de novo porque nunca aprendeu a sobreviver sem fralda. Repete-se o ciclo, troca-se o nome da companhia, mantém-se o esquema.
O detalhe delicioso é que ninguém fala dos empregos que não existem porque o capital que vai para socorrer aérea zumbi não foi para a empresa de tecnologia que precisava de crédito, para o pequeno transportador rodoviário que faliu sem anistia, para o setor que teria crescido se não fosse sangrado para manter de pé o protegido do andar de cima. O que se vê é o anúncio do salvamento com plaquinha e foto. O que não se vê é tudo aquilo que deixou de nascer porque o dinheiro foi desviado para tapar o buraco do amigo do rei.
Há também a questão monetária por trás do voo da ação. Juros americanos finalmente recuando, dólar dando trégua, custo de leasing de aeronave começando a respirar. Tudo isso ajuda. Mas ajuda quem está preparado para aproveitar, e essa é a diferença entre uma empresa que aprendeu a operar com disciplina e outra que passou década inteira esperando o próximo pacote de bondade do Tesouro. Ciclo de crédito vira para todos, mas só quem fez o dever de casa colhe quando a maré sobe. Os outros afundam mais devagar, só isso.
A moral da história canadense, que vai passar despercebida na imprensa econômica brasileira porque não rende manchete bonita, é que companhia aérea saudável é aquela que tem cliente satisfeito e acionista atento, não aquela que tem ministro amigo e BNDES generoso. Mercado livre não é crueldade, é honestidade. Subsídio não é solidariedade, é roubo com nota fiscal. E enquanto a gente continuar fingindo que dá para reinventar a roda da gravitação econômica em pleno século vinte e um, vai continuar pagando passagem cara para voar em avião velho de empresa que vive de promessa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.