Olha que coisa interessante. O Airbnb entregou mais receita do que os analistas esperavam, e ainda assim conseguiu a façanha rara de decepcionar no lucro. Em qualquer manual de capitalismo saudável, mais venda deveria significar mais sobra no fim do mês. Quando isso para de acontecer, não é a empresa que está mal administrada; é o ambiente em que ela opera que ficou hostil. E o ambiente, no caso do hospedagem por aplicativo, virou um campo minado regulatório que cresceu mais rápido que a própria plataforma.
Pense por um instante no que aconteceu nos últimos cinco anos com a hospedagem de curto prazo no mundo inteiro. Nova York praticamente proibiu, Barcelona persegue, Lisboa taxa, Paris limita noites, prefeituras brasileiras descobriram a mina de ouro do imposto sobre serviço, e cada cidade resolveu inventar sua própria regrinha sob o pretexto nobilíssimo de proteger o mercado imobiliário, o turismo local, o sossego do bairro, a alma da cidade, escolha o álibi de sua preferência. O resultado prático é que cada dólar de receita que entra no Airbnb hoje passa por uma trituradora de compliance, advogados, lobistas, taxas municipais e seguros obrigatórios que não existiam em 2018. A receita sobe, o lucro míngua, e ninguém pergunta o porquê em voz alta.
Quem se beneficia dessa pressão regulatória? A resposta está escrita nas paredes de qualquer hotel de bandeira tradicional que viu sua margem ser comida pela concorrência descentralizada e descobriu, oh surpresa, que o caminho mais rápido para reconquistar o mercado não é melhorar o serviço, é capturar o vereador. A indústria hoteleira tradicional aprendeu que financiar associações de bairro indignadas, patrocinar estudos sobre gentrificação e sussurrar no ouvido de prefeito custa muito menos que reformar quarto. E a conta dessa engenharia política aparece exatamente onde apareceu agora: no demonstrativo de resultados de uma empresa que cresce em volume mas encolhe em rentabilidade.
Há ainda o detalhe que ninguém comenta nos relatórios de banco. Cada nova exigência de licença, cada novo cadastro municipal, cada nova obrigação de retenção fiscal não é apenas custo direto; é uma barreira de entrada que protege quem já está dentro. O anfitrião amador, aquele senhor que aluga o quarto vazio do filho que foi morar fora, esse é varrido do mercado primeiro. Sobra o profissional, sobra a empresa especializada, sobra quem tem advogado e contador. A descentralização que fez o Airbnb crescer está sendo desmontada parafuso por parafuso, e o paradoxo é que a própria empresa vai sobreviver melhor que seus anfitriões originais, porque grande sempre paga compliance mais barato que pequeno.
O investidor que olhou para o balanço e vendeu a ação fez a leitura correta sem talvez saber explicar. Não é que o Airbnb esteja perdendo turista, está ganhando turista de menos qualidade contábil. É turista que chega através de uma teia de intermediários regulatórios que cobram pedágio em cada esquina. A plataforma virou cobrador de imposto disfarçado de aplicativo de hospedagem, e cobrador de imposto tem margem de cobrador de imposto, não margem de tecnologia. Wall Street está lentamente reprecificando essa metamorfose.
O recado para quem ainda acredita que regulação protege consumidor é simples e ingrato. Toda vez que uma cidade celebra ter colocado o Airbnb na linha, está celebrando, sem saber, ter encarecido sua própria hospedagem, reduzido a oferta para o viajante de classe média e devolvido poder de mercado para os mesmos cartéis hoteleiros que cobravam fortuna antes da plataforma existir. O lucro que o Airbnb deixou de entregar neste trimestre não evaporou; foi redistribuído em forma de taxa, multa, licença e estudo de impacto. Alguém recebeu cada centavo. E não foi você.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.