A Alcidion Group, empresa australiana de software hospitalar, anunciou crescimento de 9% na receita do terceiro trimestre de 2026 e o mercado bocejou educadamente, como sempre faz quando uma fornecedora do setor público bate meta. Pois é justamente no bocejo que mora o truque. Ninguém pergunta de onde vem o dinheiro que infla esses balanços trimestre após trimestre, ano após ano, década após década. Vem do bolso do contribuinte australiano, britânico, neozelandês, canalizado por sistemas públicos de saúde que terceirizam tudo aquilo que não sabem fazer e depois cobram do cidadão a conta de não terem aprendido.
Olha, o modelo é antigo e funciona como relógio suíço. O Estado monta um monopólio de saúde pública, declara que tecnologia é essencial, descobre dois anos depois que não tem competência para desenvolver nada internamente, abre licitação calibrada para fornecedores especializados em ganhar licitações, e pronto: nasce um mercado cativo onde a clientela é obrigada a comprar e o produto não tem concorrência real porque a concorrência verdadeira foi sufocada pela barreira regulatória que o próprio comprador criou. A receita cresce 9% não porque alguém escolheu livremente pagar pelo serviço, mas porque um burocrata em Camberra assinou um contrato de cinco anos com correção automática.
Quer dizer, o crescimento da Alcidion é apresentado como prova de competência empresarial, e talvez seja, mas é a competência de saber navegar a máquina, não de servir o cliente. Há diferença abissal entre uma empresa que cresce porque convenceu milhões de consumidores a tirarem o cartão do bolso e uma empresa que cresce porque convenceu uma dúzia de gestores públicos a redirecionarem o cartão alheio. A primeira é mérito. A segunda é arranjo. E o leitor que conhece a fauna brasileira sabe muito bem que nossa indústria de software para o SUS, para tribunais, para prefeituras, opera no mesmo princípio: faturamento garantido por lei, margem garantida por captura, inovação garantida por nada.
Repare na sutileza retórica do setor. Eles se vendem como modernizadores da saúde pública, como heróis da transformação digital, como se sem eles os hospitais ainda escrevessem prontuário em papiro. Mas a verdade nua é que sistemas privados de saúde, financiados voluntariamente por quem paga plano, digitalizaram-se há vinte anos sem precisar de subsídio nenhum, sem estardalhaço nenhum, simplesmente porque quem perde cliente quebra. No setor público, ao contrário, a digitalização vira projeto eterno, sempre incompleto, sempre exigindo nova rodada de contratação, sempre rendendo notícia de balanço trimestral favorável para o fornecedor. O que para o cidadão é despesa permanente, para o acionista da Alcidion é receita recorrente. Bonito o arranjo.
E aqui mora a lição que ninguém na imprensa econômica quer ensinar: cada ponto percentual de crescimento dessas fornecedoras estatais é também um ponto percentual de imposto que não voltou para o contribuinte, de leito que não foi construído, de médico que não foi contratado, de medicamento que não foi comprado. O que se vê é o belo gráfico ascendente apresentado em teleconferência aos investidores. O que não se vê é a fila de espera que continua existindo apesar dos bilhões investidos em software, é o aposentado que paga imposto a vida toda e morre na porta do pronto-socorro enquanto a tela do prontuário eletrônico carrega impecavelmente o seu CPF.
Por isso o leitor precisa treinar o olhar. Quando ler que a fornecedora X cresceu Y% no trimestre, pergunte sempre: cresceu vendendo para quem? Se a resposta for governo, a notícia não é de mercado, é de redistribuição. Se a resposta for governo estrangeiro, é redistribuição com sotaque. E se ninguém na matéria fizer essa pergunta, pode apostar: o jornalista almoçou com o assessor de imprensa da empresa e achou o release tão bem escrito que copiou inteiro. Crescimento de 9% é número. Saber de onde ele veio é inteligência.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.