Davi Alcolumbre abriu o jogo com a sutileza de um leiloeiro experiente, a PEC da 6x1 vai tramitar pelas comissões e será votada antes do calendário eleitoral. Tradução para quem não fala o dialeto de Brasília, está tudo combinado, falta apenas escolher o figurino do dia da votação. Os senadores reclamam em off que a Câmara aprovou o texto a toque de caixa, mas reconhecem, com aquela honestidade involuntária que escapa quando o microfone esquece de desligar, que ninguém quer carregar o ônus de travar a benesse no ano em que o eleitor vai às urnas. Quer dizer, todos sabem que a medida é canhestra, mas ninguém quer ser fotografado segurando o machado.

Olha, é fascinante o espetáculo de uma classe política que descobriu, pela enésima vez, que pode comprar voto com o tempo alheio. Reduzir jornada por decreto constitucional não cria uma hora a mais no dia, não inventa produtividade do nada, não faz o pãozinho da padaria render mais. Apenas redistribui custos, e redistribui na direção que ninguém ousa anunciar no palanque, o pequeno empresário que vai fechar, o trabalhador informal que nunca teve carteira nenhuma, o consumidor que vai pagar mais caro no balcão, e o jovem em primeiro emprego que vai descobrir que a porta de entrada do mercado formal acabou de ficar mais estreita. O que se vê é o operário sorridente saindo mais cedo da fábrica, o que não se vê é a fábrica que nunca foi aberta porque a conta não fechou na planilha.

Siga o dinheiro e a paisagem fica mais nítida. Quem ganha eleitoralmente com a medida é a bancada que precisa de manchete simpática em ano par. Quem ganha materialmente é o trabalhador já empregado, sindicalizado, em grande empresa, com poder de barganha consolidado, exatamente o segmento que menos precisa de ajuda. Quem perde é o universo invisível dos que ainda não entraram, dos que dependem do mercado se expandir para conseguir uma vaga, dos pequenos comerciantes que operam com margens de padeiro e agora terão que reorganizar escala, contratar mais gente que não cabe no caixa, ou simplesmente fechar a porta. A conta da generosidade alheia sempre chega no endereço errado.

Há algo de profundamente revelador no fato de que a Câmara correu para aprovar e o Senado agora finge ponderar. É o mesmo balé de sempre, uma Casa faz o serviço sujo, a outra encena resistência institucional, e no final ambas assinam embaixo com cara de quem cumpriu dever cívico. A coreografia é tão ensaiada que dá para prever os próximos passos sem consultar a pauta, audiência pública decorativa, parecer técnico cosmético, voto em plenário com discurso emocionado sobre dignidade do trabalhador, e champanhe nos bastidores. Quando todos os atores concordam que algo é inevitável, geralmente é porque alguém combinou que seria inevitável.

Reduzir jornada constitucionalmente é tratar a economia como se fosse um quadro branco onde se apaga e reescreve a vontade. Mas economia não é decreto, é o resultado agregado de milhões de decisões individuais que respondem a incentivos reais. Quando se encarece o trabalho formal por canetada, o empregador não vira filantropo, vira contratante mais seletivo, ou terceirizador, ou pejotizador, ou simplesmente investidor em automação. A medida que pretende proteger o emprego é a mesma que vai empurrar mais gente para a informalidade, para o aplicativo, para o bico, para o desemprego disfarçado de empreendedorismo de necessidade. E quando o tiro sair pela culatra, como sempre sai, a culpa não será atribuída a quem aprovou, será atribuída ao mercado, ao capitalismo, à ganância dos patrões, e a próxima rodada de intervenção já estará na fila.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que uma intervenção dessas dimensões resolveu o problema que prometeu resolver sem criar três problemas novos pelo caminho. A história econômica é um cemitério de boas intenções legisladas, e o brasileiro, com sua paciência de Jó e memória de peixe, continua aceitando que cada nova lei trabalhista é a definitiva, a justa, a que finalmente vai consertar tudo. Não vai. Vai apenas redistribuir miséria com nova embalagem e nome bonito. E em outubro, quando o eleitor for às urnas grato pelo presente que recebeu, vai votar exatamente em quem está preparando a fatura que ele mesmo pagará nos próximos quatro anos.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.