Alexandre Ramagem foi preso pelo ICE americano. O ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, ex-deputado federal, condenado a 16 anos por tentativa de golpe, estava vivendo nos Estados Unidos como foragido da Justiça brasileira. Não é todo dia que o chefe do serviço de espionagem de um país termina sendo capturado por agentes de imigração de outro. A cena tem qualquer coisa de teatro do absurdo, mas é real, e merece ser olhada sem filtro.
Primeiro, o óbvio que ninguém vai dizer com a clareza devida: um homem que passou anos à frente da inteligência nacional, que sabia como operar nas sombras, que tinha acesso a tudo que um Estado moderno produz de informação sigilosa, não conseguiu sustentar nem uma fuga limpa nos Estados Unidos. Isso diz algo. Ou ele confiava demais em proteções que não se materializaram, ou subestimou a cooperação entre agências, ou simplesmente achou que o poder que teve no passado projetava alguma sombra de proteção no presente. Não projetou. O poder que alguém tinha é a moeda mais desvalorizada do universo político.
Segundo, a pergunta que a imprensa grande não fará com seriedade: o que o ICE estava fazendo prendendo um foragido político brasileiro? O serviço de imigração americano, especialmente na atual gestão de Washington, não costuma mover um dedo por cortesia diplomática com governos que olha com reserva. Se o ICE prendeu Ramagem, é porque havia entendimento, comunicação, interesse. Cooperação internacional não nasce do acaso, não brota espontaneamente de boa vontade entre nações. Alguém pediu, alguém respondeu, alguma coisa foi trocada no silêncio. Saber o que foi negociado nesse arranjo invisível seria infinitamente mais revelador do que qualquer coletiva que a Polícia Federal vier a dar.
Terceiro, e aqui chegamos ao nó: a condenação a 16 anos é juridicamente controversa e politicamente carregada o suficiente para que qualquer análise honesta precise admitir as duas coisas ao mesmo tempo. O tribunal que condenou Ramagem também tem suas próprias razões de Estado, seus próprios interesses institucionais, sua própria história de decisões tomadas antes do trânsito em julgado em casos de interesse político manifesto. Isso não significa que Ramagem seja inocente. Significa que celebrar acriticamente a condenação proferida por esse tribunal específico exige uma fé institucional que os fatos não autorizam. A Justiça com J maiúsculo e a justiça praticada no Distrito Federal são, muitas vezes, coisas distintas.
Mas existe uma ironia que precisa ser dita sem eufemismo: um homem que passou anos como instrumento refinado do aparato estatal, que usou as ferramentas do poder institucional para fins que o próprio poder institucional mais tarde julgou criminosos, foi capturado pelo mesmo tipo de aparato, só que com outra bandeira costurada no ombro. Há uma constância histórica nisso que deveria ser estudada com mais atenção. Os generais que apostaram no poder e perderam, os ministros que confundiram lealdade ao regime com proteção perpétua, os conselheiros que acharam que o conhecimento acumulado valia passagem vitalícia, todos terminaram descobrindo que o Estado não tem saudade. Usa, descarta, e quando necessário, captura.
O que fica desta história não é a vitória de ninguém. Não é vitória do Supremo, não é vitória do governo federal, não é derrota definitiva de um campo político. O que fica é a demonstração nua de que apostar na derrubada de um resultado eleitoral pela força, ou pela ameaça da força, é uma aposta com prazo de validade curto e custo de longo prazo muito alto. A liberdade que vale alguma coisa não é a liberdade de escapar das consequências das próprias escolhas. É a liberdade de fazê-las com responsabilidade, e de arcar com o que vier depois. Ramagem fez suas escolhas. O ICE cobrou a conta.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.