A notícia é curta, o mecanismo é antigo. A Alfa Financial Software comunicou ao mercado a concessão de prêmios em ações a executivos da companhia, numa daquelas divulgações que chegam nos rodapés dos portais financeiros com linguagem asséptica e efeitos muito concretos. "Prêmios em ações" soa bem. Soa como mérito, como alinhamento de interesses, como governança moderna. Mas siga o dinheiro de perto e o cenário muda de cara: é a diretoria usando o caixa coletivo para remunerar a si mesma por decisões cujos resultados ela ainda não produziu.
O argumento clássico é que entregar ações aos gestores os transforma em donos, não em empregados, e assim os incentiva a pensar no longo prazo. É um argumento bonito. O problema é que, na prática, o executivo moderno aprendeu a jogar esse jogo de um jeito muito específico: recompras de ações para inflar o preço no curto prazo, corte de investimentos que poderiam comprometer o resultado trimestral, e remuneração atrelada a métricas que a própria diretoria ajudou a desenhar. O alinhamento de interesses, na teoria, alinha o executivo com o acionista. Na prática, alinha o executivo com o executivo.
Há aqui uma lógica perversa que os conselhos de administração do mundo inteiro fingem não enxergar. O conselho aprova a remuneração da diretoria. A diretoria indica membros para o conselho. Os dois se reúnem periodicamente para confirmar que todos estão fazendo um trabalho excelente e que todos merecem um pouco mais. É o capitalismo de compadrio com terninho e PowerPoint. Nenhuma mão invisível opera nessa sala: opera a mão bem visível de quem conhece quem, de quem almoça com quem, de quem vai sentar no mesmo conselho daqui a dois anos quando trocar de cadeira.
O acionista minoritário, esse ser mitológico que acreditou no prospecto e colocou sua poupança na empresa, está no fim da fila. Antes dele chegam os executivos com suas stock options, os conselheiros com seus fees, os bancos com suas taxas de emissão, os advogados com seus contratos de governança. Quando sobra algo, distribui-se o dividendo. Quando não sobra, comunica-se que o momento exige "reinvestimento estratégico" e a diretoria recebe mais ações "para manter o talento". A lógica é circular e a saída é estreita.
Não existe nada de errado com remunerar bem quem entrega resultado extraordinário. O problema é quando o resultado extraordinário é definido pela mesma pessoa que vai receber a remuneração extraordinária, com base em métricas escolhidas por quem se beneficia delas, aprovadas por um conselho que deve favores a quem as propôs. Isso não é capitalismo. Isso é feudalismo com liquidez. O senhor feudal ao menos era honesto sobre quem mandava no castelo.
A Alfa Financial Software não inventou nada. Fez o que todas fazem, no ritmo que todas fazem, com o vocabulário que todas usam. E é exatamente por isso que vale parar e olhar. Não pelo escândalo isolado, mas pelo sistema que transformou o escândalo em rotina, a rotina em regulamento e o regulamento em "melhores práticas de governança corporativa". Quando a pilhagem vira protocolo, o protocolo vira invisível. E o invisível só aparece quando alguém resolve, finalmente, nomear o que está vendo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.