Sessenta e três por cento num pregão. A Algoma Steel, siderúrgica canadense que até ontem era figurante no noticiário, virou protagonista porque algoritmos de avaliação por preço justo apontaram que a ação estava descolada do valor implícito nos fundamentos. O mercado fez o que o mercado faz quando ninguém atrapalha: corrigiu o desvio na velocidade da luz. E os investidores que prestaram atenção embolsaram num dia o que um título público paga em meia década.
Vamos ao óbvio que ninguém quer enxergar. Preço não é número arbitrário inventado por especulador de gravata. Preço é a síntese mais densa de informação que a humanidade já inventou, condensa o conhecimento disperso de milhões de pessoas, suas expectativas, seus medos, seus cálculos sobre custos de minério, juros, demanda chinesa, política tarifária americana e por aí vai. Quando o preço de uma ação se descola do valor econômico subjacente, abre-se uma janela. Quem tem olhos para ver passa por ela. Quem fica esperando o burocrata avisar, fica de fora.
Repare na ironia. Os mesmos comentaristas que vivem dizendo que o mercado é irracional, que precisa ser domado, que carece de tutela regulatória, são os que tropeçam quando o mercado faz precisamente o que se espera dele: encontra o preço correto sem precisar de portaria, sem reunião de comitê, sem assinatura de ministro. A Algoma não subiu porque algum gênio em Brasília ou em Otava decretou que ela valia mais. Subiu porque, livre, o sistema de preços corrigiu uma assimetria que nenhum planejador central conseguiria sequer enxergar.
Olha, a história do aço é cheia de cicatrizes deixadas pela mão pesada do Estado. Subsídio aqui, tarifa ali, salvamento acolá, e no fim das contas o consumidor paga a conta enquanto o burocrata posa de salvador da pátria industrial. Quando uma siderúrgica destrava valor de mercado por mérito próprio, sem precisar de muleta governamental, é quase um milagre laico. E vale a pena registrar, porque a próxima notícia provavelmente será de algum ministro propondo "alinhar" o setor com algum plano de cinco anos disfarçado de política industrial moderna.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais didática. Quem ganhou foram os acionistas que estudaram balanço, leram fluxo de caixa descontado, compararam múltiplos, fizeram a lição de casa. Quem perdeu foi quem terceirizou o pensamento para manchete de jornal econômico generalista. O mercado pune a preguiça intelectual com a mesma frieza com que recompensa a diligência. Não há justiça mais limpa nem juiz mais imparcial que o pregão aberto, onde cada um aposta com o próprio bolso e arca com as próprias consequências.
Fica a moral da fábula, gratuita para quem quiser anotar. Toda vez que alguém propuser substituir o juízo de milhões de agentes livres pela sapiência de meia dúzia de iluminados, lembre da Algoma. Uma sessão de bolsa fez o que nenhum comitê de planejamento conseguiria fazer em uma década: descobriu, em horas, o preço que faltava. O mercado não é perfeito porque é livre, é eficiente porque é livre. E quem confunde uma coisa com a outra, geralmente termina querendo consertar o que funciona e protegendo o que apodrece.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.