Dez semanas de conflito, um cessar-fogo pendurado por um fio, e a notícia que sai de Teerã é a mesma de sempre, apenas com roupagem nova. O regime iraniano rejeitou a proposta americana de paz, Trump rejeitou a contraproposta iraniana, e o analista do instituto londrino traduz o óbvio para quem ainda não entendeu: os aiatolás acham que vão sobreviver ao americano. E olha, eles têm razão histórica para achar isso. Já sobreviveram a Carter, a Reagan, aos dois Bush, a Obama, ao primeiro mandato do próprio Trump e a Biden. Presidente americano dura quatro anos, oito no máximo. Aiatolá dura até Deus chamar.

Quer dizer, a assimetria temporal é o ativo geopolítico mais subestimado do mundo. Democracia ocidental opera em ciclo eleitoral, com pesquisa de aprovação semanal, manchete diária e um congresso que muda de humor toda terça. Teocracia opera em ciclo geracional, com o mesmo Líder Supremo há décadas, sem prestação de contas, sem oposição que ameace, sem imprensa que incomode. Quando você negocia com alguém que tem o relógio do seu lado, a estratégia ótima é uma só: enrolar. Aceitar reunião, fazer contraproposta inviável, voltar para a mesa, repetir. Cada semana ganha é uma semana a mais até o próximo eleitor americano decidir que cansou de Oriente Médio.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que sanção econômica derruba regime fanático? A experiência do último meio século prova exatamente o contrário. Sanção encarece a vida do povo, fortalece o mercado paralelo controlado pela Guarda Revolucionária, justifica a narrativa do inimigo externo e consolida o poder dos que controlam o desvio. Siga o dinheiro do petróleo iraniano que vai aparecer na China, na Índia, em refinarias turcas com bandeira de conveniência, em frotas fantasmas que mudam de nome no meio do mar. O embargo americano não estrangula Teerã, apenas redistribui a renda do petróleo iraniano para os intermediários certos, que por acaso são os mesmos generais que decidem se haverá ou não cessar-fogo.

E tem o lado de cá, que merece análise sem complacência. A política externa americana virou refém do calendário eleitoral interno, e isso é fraqueza estrutural, não escolha tática. Trump precisa de uma vitória diplomática vendável até o próximo ciclo, e o adversário sabe disso com a clareza de quem lê pesquisa Gallup melhor que cientista político de Harvard. Quando o seu prazo é a próxima manchete e o prazo do outro é o juízo final, quem tem pressa perde. É lição básica de negociação que qualquer feirante de bazar persa aprendeu antes de aprender a ler, e que assessor de segurança nacional de Washington insiste em desaprender a cada quatro anos.

Há ainda o detalhe que ninguém da grande imprensa quer encarar de frente: a estabilidade do Oriente Médio nunca foi objetivo real de nenhuma das partes envolvidas no jogo. Estabilidade não vende armamento, não justifica orçamento de defesa, não financia think tank, não eleva preço do barril, não mantém a casta de generais relevante. O conflito permanente é o produto, não o defeito. E o regime iraniano entende isso melhor que ninguém, porque foi exatamente assim que se manteve no poder desde 1979, transformando hostilidade externa em combustível interno, e cada bomba americana em sermão de sexta-feira.

O cessar-fogo vai aguentar mais um tempo, depois quebra, depois volta, depois quebra de novo. O preço do barril sobe, alguém ganha muito dinheiro com a oscilação, o contribuinte americano paga a conta da próxima rodada de mísseis, o contribuinte iraniano paga a conta com inflação de três dígitos, e os senhores da guerra dos dois lados continuam exatamente onde sempre estiveram. Paciência venceu pressa em todas as guerras prolongadas da história, e nada indica que desta vez será diferente.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.