A notícia chegou embrulhada em papel de presente. A Alibaba integrou seu modelo de linguagem Qwen ao Taobao, o maior bazar digital do planeta, e agora o consumidor chinês pode comprar conversando, sem digitar, sem clicar, sem fricção. O marketing fala em revolução do varejo, em experiência fluida, em futuro chegando. O fato concreto é mais simples e mais sombrio, uma plataforma que já era o sistema nervoso do consumo de um bilhão e meio de pessoas acaba de ganhar ouvidos, e esses ouvidos pertencem a uma empresa que jamais existiu sem o consentimento ativo do Partido Comunista Chinês.

Olha, ninguém precisa ser paranoico para enxergar o que está acontecendo. A história econômica é repleta de tecnologias que entraram pela porta da conveniência e saíram pela porta da vigilância. Cada inovação que reduz o atrito entre desejo e consumo aumenta, na exata mesma proporção, o registro do que você é, do que você quer, do que você compraria se pudesse. O preço da comodidade nunca aparece na etiqueta. Ele aparece anos depois, quando o cidadão descobre que o algoritmo sabe mais sobre seus impulsos do que ele próprio, e que esse conhecimento já foi vendido, cruzado, monetizado e, no caso chinês, entregue de bandeja a quem decide quem viaja, quem trabalha e quem some.

Quer dizer, é preciso uma dose admirável de ingenuidade para tratar a Alibaba como uma empresa privada no sentido que o ocidental ainda finge entender por privado. Jack Ma desapareceu por meses depois de criticar timidamente o regime, voltou amansado e foi substituído na prática pela tutela estatal. Tudo que circula no Taobao circula sob o olhar do Partido. E agora o que circula inclui a voz, o tom, a hesitação, o sotaque, o vocabulário íntimo de cada comprador. A voz é o dado biométrico mais traiçoeiro que existe, ela revela estado emocional, condição de saúde, idade, origem social, intenção. Entregá-la voluntariamente a uma plataforma é ato de submissão travestido de modernidade.

O brasileiro distraído lê isso, dá de ombros e pensa que é problema chinês. Não é. O Mercado Livre, a Amazon, a Magalu, todos correm para implantar o mesmo brinquedo, com o mesmo argumento, com a mesma promessa de fluidez. E o nosso Estado, que já sonha com Pix obrigatório, identidade digital unificada e CPF atrelado a tudo que respira, observa com inveja a engenharia social chinesa e toma notas. A diferença entre Pequim e Brasília não é de princípio, é de competência. Lá conseguem implementar, aqui ainda tropeçam, mas o desejo de controle é idêntico, e a tecnologia que viabiliza esse controle está sendo testada, aperfeiçoada e exportada hoje, agora, no Taobao.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. A Alibaba não está oferecendo Qwen de graça por bondade, está pagando para colher dados de voz em escala industrial, porque dado de voz treina modelo, modelo treinado vira produto, produto vira receita, e receita compartilhada com o regime vira sobrevivência corporativa. É um arranjo perfeito, o consumidor paga com a privacidade, a empresa fatura com o dado, o Estado fatura com o controle, e todo mundo sai sorrindo da fotografia, menos quem entendeu o que foi fotografado. O capitalismo de compadrio chinês é mais honesto que o nosso porque pelo menos não finge ser outra coisa.

Me diz uma coisa, em que momento exatamente o ocidente decidiu que comodidade vale mais que liberdade. Foi quando trocamos o dinheiro vivo pelo cartão, o cartão pelo aplicativo, o aplicativo pelo reconhecimento facial, o reconhecimento facial pela voz. A cada etapa uma camada de autonomia foi entregue em troca de três segundos a menos no caixa. O chinês ao menos não tem escolha, vive sob um regime declaradamente autoritário. Nós, que ainda chamamos nossas democracias de livres, estamos construindo a mesma jaula com as próprias mãos e ainda agradecendo o conforto das grades. A próxima coleira sempre chega disfarçada de inovação, e quem reclamar será chamado de retrógrado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.