A notícia chega embrulhada no papel de presente de sempre. Uma empresa estrangeira de diagnóstico molecular fecha joint venture no Brasil para produzir sondas FISH, aquelas usadas em testes genéticos de câncer e doenças hereditárias, e a imprensa econômica trata o anúncio como se fosse o renascimento da indústria nacional de alta tecnologia. Sondas FISH, para quem não está familiarizado, são reagentes sofisticados que marcam fragmentos específicos do DNA, e o mercado mundial é dominado por meia dúzia de gigantes. Que uma fábrica desse tipo se instale aqui, em tese, é boa notícia. O problema, como sempre, não está no que se vê, mas no que ninguém pergunta.
A primeira pergunta é por que agora. O Brasil tem demanda por diagnóstico molecular há pelo menos vinte anos. O mercado oncológico cresce em ritmo de dois dígitos. Os hospitais privados importam sondas FISH desde a década de noventa pagando o preço que o fornecedor quiser cobrar, com impostos que dobram o valor na alfândega. Se o negócio era tão atrativo, alguém teria montado a operação aqui sem precisar de festa de inauguração com ministro presente. Quando uma fábrica que poderia ter existido há duas décadas aparece de repente, geralmente é porque o cálculo mudou, e o cálculo só muda quando o contribuinte entra como sócio invisível.
Vale acompanhar o dinheiro. Joint ventures de tecnologia médica no Brasil raramente prosperam sem o triângulo conhecido: BNDES financiando a CAPEX a juros que nenhum mortal consegue, Finep cobrindo pesquisa que deveria ser custo do investidor, e o SUS comprando o produto final por preço administrado que garante margem cativa. Some-se a isso a Lei do Bem, isenções de IPI, regime aduaneiro especial, e talvez algum incentivo estadual no formato leilão entre governadores ansiosos por foto. O sócio brasileiro entra com terreno, alvará e relacionamento institucional. O sócio estrangeiro entra com o nome. O contribuinte entra com tudo o mais e nem é convidado para o coquetel.
Há ainda a dimensão regulatória, que é onde mora o jabuti mais gordo. A Anvisa tem demorado anos para aprovar registros de sondas importadas concorrentes, enquanto fabricantes locais conseguem trâmite expresso. Reserva de mercado disfarçada de exigência sanitária é tática antiga, e funciona maravilhosamente bem para quem está dentro da fábrica e horrivelmente mal para o paciente que precisa do exame. O resultado previsível é o de sempre: o consumidor final, o hospital, o convênio e em última instância o doente vão pagar mais caro por um produto que o mercado livre entregaria por menos. A produção nacional vira sinônimo de cativeiro nacional.
Ninguém aqui é contra fábrica, ciência ou tecnologia molecular. Pelo contrário. O ponto é que o capitalismo de verdade não precisa de padrinho na Esplanada para investir onde há demanda real. Quando o investimento só faz sentido com subsídio, isenção, financiamento subsidiado e reserva regulatória, não é investimento, é transferência de renda. A diferença entre empreendedor e rentista é exatamente essa: o primeiro arrisca capital próprio buscando lucro no mercado, o segundo desenha o jogo para que perder seja impossível porque a conta fica com quem não pode reclamar.
O anúncio será celebrado como vitória do Brasil na rota da biotecnologia global. Daqui a cinco anos, quando o preço da sonda nacional estiver acima da importada, quando o registro dos concorrentes continuar emperrado e quando o BNDES estiver renegociando a dívida pela terceira vez, ninguém vai lembrar que era óbvio desde o começo. Indústria nacional é ótima quando nasce do mercado. Quando nasce do balcão do governo, é só mais um andar do mesmo prédio em que moram os de sempre, com vista privilegiada para o bolso do pagador de impostos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.