A Alpha Tau Medical, empresa israelense listada em Nasdaq, comunicou ao mercado a conclusão do recrutamento de pacientes para seu estudo pivô da terapia Alpha DaRT no tratamento de carcinomas de células escamosas e basais da pele, a etapa que antecede o pedido de aprovação junto à FDA. O anúncio, claro, foi recebido com a coreografia habitual de Wall Street: alta na ação, comunicado triunfal, vídeo institucional com música épica e analista de banco rabiscando relatório com preço-alvo revisado para cima. O fato bruto, antes de qualquer floreio, é simplesmente este: terminaram de incluir gente no ensaio. Nada foi curado, nada foi aprovado, nada foi entregue. E mesmo assim, virou notícia de mercado.
Olha, há um ponto que precisa ser dito sem rodeios. A indústria farmacêutica moderna construiu uma engenharia financeira tão sofisticada que cada etapa burocrática do processo regulatório virou evento de capital. Recrutar pacientes virou release. Submeter protocolo virou release. Receber carta de "fast track" da FDA virou release. Entre o sofrimento do paciente real, deitado numa maca em Houston ou em Tel Aviv, e o gráfico verde que aparece na tela do trader em Manhattan, há uma cadeia de intermediários que vive não da cura, mas da promessa de cura precificada em dólar por ação. Quem se beneficia disso é uma elite muito específica, e quem paga é o contribuinte americano via NIH, o investidor de varejo que compra o hype, e o paciente terminal que aceita virar dado estatístico em troca de esperança.
A tecnologia em si, o tal Alpha DaRT, que usa partículas alfa de rádio-224 implantadas no tumor, pode até ser legítima e promissora. Não é o mérito científico que está em julgamento aqui. O que precisa ser examinado é o arranjo institucional em volta. A FDA, agência criada para proteger o cidadão de remédio falsificado nos anos 1930, virou um cartório de pedágio onde nada chega ao mercado sem dezenas de milhões de dólares em estudos exigidos pelo próprio cartório. O resultado previsível é que apenas conglomerados gigantescos ou startups capitalizadas na bolsa conseguem brincar nesse parque. O médico israelense que inventou algo no fundo do laboratório, sem fundo de venture capital atrás, simplesmente não existe. E nos perguntam por que remédio é caro.
Há um detalhe ainda mais saboroso. Carcinoma basocelular e espinocelular de pele, os alvos do estudo, já têm tratamentos consagrados, baratos e eficazes na esmagadora maioria dos casos: cirurgia ambulatorial, crioterapia, terapia fotodinâmica. A pergunta honesta é qual o tamanho real do mercado clinicamente carente versus o tamanho do mercado financeiramente construído. Quando uma empresa precisa convencer o paciente, o médico, a seguradora e o regulador de que sua solução cara substitui uma solução barata que funciona, o que está em jogo deixa de ser saúde e passa a ser marketing regulatório. E aí entram os lobistas, as sociedades médicas patrocinadas, os congressos pagos, os artigos científicos com autoria de aluguel, toda a maquinaria conhecida.
O leitor cético que acompanha biotech há mais de dez anos sabe o final desse filme em três variantes. Variante um: o estudo dá certo, a FDA aprova, a ação dispara, os fundadores e os primeiros investidores de risco saem ricos, o produto entra no mercado a preços estratosféricos cobertos pelo Medicare, e o americano comum financia tudo via imposto sem nunca ter sido consultado. Variante dois: o estudo falha em endpoint secundário, a ação despenca oitenta por cento, os pequenos investidores perdem tudo, os executivos seniores já venderam suas posições antes do anúncio porque tinham informação privilegiada disfarçada de "trading plan automático". Variante três: a empresa é comprada por uma big pharma antes do desfecho, todo mundo na mesa de capital sai feliz, e o produto some na gaveta porque competia com algo já lucrativo do comprador.
Não há nada de errado em torcer pela ciência boa, e que essa terapia funcione e salve vidas é um desejo legítimo de qualquer pessoa decente. O que não pode passar batido é a confusão deliberada entre progresso médico real e teatro corporativo precificado em bolsa. Recrutamento concluído não é cura, anúncio não é evidência, e ação subindo não é validação científica. Enquanto continuarmos tratando comunicado de relações com investidores como se fosse boletim do hospital, vamos seguir financiando, com dinheiro nosso, uma indústria que aprendeu a transformar esperança humana em derivativo financeiro. E o pior: aplaudindo de pé.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.