A notícia chega com aquele ar de naturalidade que toda boa propaganda tem. A Alphabet, holding do Google, emite dívida nova, a Moody's coloca o selo Aa2, segundo melhor da casa, e o mercado responde com a obediência canina de quem aprendeu a abanar o rabo quando o dono assobia. Custos de captação caem, spreads apertam, fundos de pensão correm para a fila. Tudo lindo, tudo limpo, tudo tecnicamente impecável. Só que ninguém pergunta a coisa mais óbvia do mundo, e é justamente o óbvio que ninguém enxerga mais nesta praça: por que diabos uma empresa que gera caixa operacional na casa das centenas de bilhões precisa se endividar com tanta urgência num momento em que o juro americano ainda está nas alturas?
A resposta está no que não aparece no balanço com letras garrafais. Endividar-se barato quando se é gigante não é necessidade, é arma. Cada bilhão captado a custo de privilégio é um bilhão que o concorrente médio, aquele que paga juro de gente comum, jamais conseguirá igualar. É a velha história travestida de modernidade: quem já é grande consegue ficar maior usando o sistema financeiro como alavanca, e quem é pequeno paga a conta do diferencial. A agência de rating, neste arranjo, não é árbitro neutro, é cartorial. Carimba a hierarquia existente e cobra pelo carimbo. Quem paga pelo rating? A própria emissora. Quem precisa do rating para que fundos regulados comprem o papel? A própria emissora. Conflito de interesse? Imagine.
Vale lembrar, porque a memória do mercado é curta como a de peixe ornamental, que esta mesma indústria de classificação de risco deu nota AAA para pacotes podres de hipoteca subprime em 2007. Não foi descuido, foi modelo de negócios. E ninguém foi preso, ninguém quebrou, ninguém perdeu a licença. As mesmas três casas continuam ditando o que é seguro e o que não é, com o mesmo método e os mesmos incentivos perversos. Hoje carimbam Aa2 na Alphabet com a mesma solenidade com que carimbavam AAA em lixo tóxico. A diferença é que desta vez o ativo é realmente bom, mas o sistema que o avalia continua igualmente apodrecido por dentro.
Siga o dinheiro até a última gaveta e a coisa fica mais interessante ainda. A Alphabet capta barato porque é grande, fica maior porque captou barato, e usa esse dinheiro para comprar concorrentes, sufocar startups, financiar lobby em Washington e em Bruxelas, e blindar regulatoriamente o oligopólio digital que já construiu. O capital de compadrio do século vinte e um não usa mais maleta com dinheiro vivo. Usa emissão de bond com rating de privilégio, taxado pelos mesmos cartórios que vivem do favor do emissor. É o mesmo arranjo medieval com roupa de Wall Street. Quem fica de fora desta dança? Você, eu, o empreendedor que tenta abrir uma loja online e descobre que o algoritmo do buscador escolhe quem aparece e quem some.
O ponto que ninguém comenta nos boletins de análise é que esta engenharia de captação só funciona porque existe dinheiro fácil disponível para os escolhidos. Sem um sistema monetário que premia quem está perto da torneira de liquidez, a Alphabet teria que competir com o resto do mundo na disputa por poupança real, e o custo do capital seria definido pela escassez genuína, não pelo crachá. Toda vez que se vê uma gigante captando a juro de pechincha, está se vendo o subproduto de uma máquina de imprimir confiança que opera nos bastidores. A inflação que sobra para o consumidor comum é o outro lado exato da moeda do crédito barato para o gigante corporativo.
Quer dizer, no fim do dia, o Aa2 da Moody's não é notícia sobre a saúde financeira de uma empresa. É notícia sobre como funciona o capitalismo de cartório que substituiu o capitalismo de risco. O selo carimba a hierarquia, a hierarquia se autoperpetua, e o resto da economia paga o pedágio. Quem aplaude esse arranjo como triunfo do livre mercado ou nunca leu uma página de economia honesta, ou leu e prefere fingir que não entendeu. Mercado livre de verdade é o que vive sob o sol; o que precisa de carimbo, de licença, de selo e de bênção regulatória é outra coisa, e essa outra coisa tem nome feio que ninguém quer pronunciar em horário comercial.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.