A Amazon começou pelas subsidiárias Ring e Blink, aquelas que vendem campainha com câmera e fingem que isso é tecnologia de ponta, e decretou: acabaram os títulos de "sênior", "principal", "staff", toda aquela escadaria que o engenheiro subia degrau por degrau ao longo de uma década. Agora é tudo "builder", palavra genérica, plana, democrática no pior sentido da palavra. A empresa garante, de mão no peito, que salários e promoções continuam exatamente iguais. Quer dizer, mudou tudo, mas não mudou nada. Faz sentido para você?
Olha, quando uma corporação do tamanho da Amazon resolve achatar nomenclatura, não é por amor à simplicidade nem por horror à hierarquia. É por dois motivos muito concretos, e ambos passam pelo bolso de alguém. Primeiro: títulos visíveis criam mercado. Um engenheiro sênior da Amazon sabe exatamente quanto vale um sênior do Google, da Meta, da Microsoft, e usa isso na hora de negociar. Apague o título e você apaga a régua. O sujeito vira "builder", uma palavra que não diz absolutamente nada para o recrutador do concorrente, e de repente o poder de barganha evaporou. Segundo: rebaixamento silencioso. Quando todo mundo é "builder", ninguém é nada. O "principal engineer" que levou doze anos para conquistar aquele crachá descobre que agora divide categoria com o estagiário promovido ontem. Promoção e salário "não serão afetados", dizem. Sim, e o cheque está no correio.
Existe uma história antiga sobre regimes que aboliam tratamentos e títulos em nome da igualdade fraternal. Cidadão isto, camarada aquilo. O resultado nunca foi mais igualdade, foi mais opacidade. Quando ninguém pode dizer quem é o quê, quem decide quem é o quê passa a ser o aparato, o burocrata, o departamento de "people operations". A hierarquia não some, ela apenas migra do crachá visível para o organograma secreto. E quem está dentro do organograma secreto sempre é o mesmo tipo de gente: o pessoal próximo do círculo do CEO, os ungidos pela liturgia interna, jamais o sujeito que escreve código de madrugada e acha que mérito ainda significa alguma coisa.
Repare também no vocabulário. "Builder". Construtor. Soa nobre, soa artesanal, soa quase romântico, como se cada funcionário fosse um pequeno Michelangelo erguendo catedrais de software. É exatamente esse o ponto. Linguagem que romantiza serve para anestesiar. Você não é mais um engenheiro com vinte anos de carreira que merece ser remunerado conforme essa carreira; você é um "builder", parte de uma comunidade espiritual de construtores, e construtores não negociam salário, construtores constroem. É a velha tática de transformar relação contratual em relação afetiva, porque na relação afetiva quem reclama parece mesquinho.
E note quem fica calado nessa história. Os funcionários, claro, "preocupados com o impacto na carreira", segundo a própria reportagem. Estão preocupados com razão, e estão calados pela mesma razão. Em mercado de trabalho de tecnologia que vem encolhendo desde 2023, com demissões em massa nas big techs e juros americanos ainda apertando o crédito, ninguém vai bater o pé contra o empregador para defender um adjetivo no crachá. A Amazon sabe disso. Escolheu o momento perfeito. Faz a mudança quando o sujeito não tem para onde correr, depois, quando o ciclo virar, o estrago já está consolidado e a hierarquia já foi reconstruída nos bastidores, sem que ninguém possa apontar o dedo para dizer "aqui foi onde eu perdi posição".
No fim, o que está em jogo não é semântica corporativa. É controle. Quem nomeia, manda. Quem apaga o nome, manda mais. Toda vez que uma instituição grande, seja empresa, seja governo, resolve "simplificar" categorias, está concentrando poder de classificação nas próprias mãos. E poder de classificação, quem já leu duas páginas de história sabe, é o poder mais perigoso que existe, porque define quem você é antes mesmo de você abrir a boca. A Amazon não está aposentando títulos. Está aposentando o pouco de soberania profissional que ainda restava ao seu funcionário.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.