A notícia chega embrulhada em papel de presente corporativo, como sempre chegam essas coisas. Oprah Winfrey, a mulher que transformou conversa de cozinha em império bilionário, fechou acordo de exclusividade com a Amazon para distribuir seu podcast. Traduzindo do dialeto das assessorias para o português dos adultos, isso significa que quem quiser ouvir a senhora terá que passar pela catraca da empresa de Jeff Bezos. O resto da internet, aquela coisa antiga e democrática que prometia conectar todo mundo com todo mundo, fica olhando de fora.
Há uma ironia gostosa nesse arranjo, e ela merece ser saboreada com calma. A indústria do podcast nasceu como o último refúgio do espírito amador, sujeito independente gravando no quarto, RSS aberto, qualquer agregador puxando o conteúdo, ouvinte escolhendo onde consumir. Era a rádio livre do século vinte e um, sem outorga, sem censor, sem dono. Bastaram dez anos para que os mesmos conglomerados que devoraram o jornal, a televisão e o cinema descobrissem o caminho até a sala de gravação. Um por um, os grandes nomes foram sendo comprados em pacotes de oito e nove dígitos. Spotify pegou Joe Rogan, depois Michelle Obama, depois meio mundo. Agora a Amazon carimba a Oprah. O quintal vai ficando cercado, e ninguém percebe porque cada cerca é pintada de uma cor diferente.
Siga o dinheiro e a história fica menos romântica. Esses contratos de exclusividade não são caridade nem visão artística, são apostas frias de plataforma. A gigante do varejo precisa de tração para o Amazon Music e para o Audible, dois produtos que sozinhos jamais bateriam o concorrente verde. Comprando exclusividade de celebridades, ela compra ouvinte cativo, ouvinte cativo vira assinante, assinante vira dado, dado vira recomendação de produto, recomendação de produto vira venda na loja-mãe. O podcast é isca, o peixe é o seu cartão de crédito. A Oprah recebe seu cheque, a Amazon recebe sua audiência, e você recebe a fatura no fim do mês sem nem saber que pagou.
Aí entra a parte que o pessoal das redações esquece de mencionar. Quando uma figura cuja influência é praticamente quase religiosa nos Estados Unidos, capaz de eleger candidato e quebrar autor de livro, vende seu microfone para um único distribuidor, está se passa algo mais grave do que negócio entre privados. Está se concentrando o poder de moldar opinião pública dentro de plataformas cujas regras de moderação são opacas, cujos algoritmos são segredo industrial, e cujos donos atendem telefonema de senador americano antes de atender o ouvinte brasileiro. O sujeito que decide o que aparece na sua tela passa a decidir, na prática, o que existe na conversa pública. E ninguém votou nele.
Os defensores do arranjo dirão que isso é livre mercado, que ninguém é obrigado a assinar nada, que a concorrência resolve. Concordo até a metade. Livre mercado de verdade pressupõe entrada livre, e entrada livre é exatamente o que esses muros digitais estão demolindo. Quando três ou quatro empresas controlam a infraestrutura inteira do áudio digital, do servidor à recomendação, do contrato ao pagamento, o que se vê não é capitalismo robusto, é feudalismo elegante com tema escuro e fonte sans-serif. O pequeno produtor de conteúdo que tentar competir descobre que precisa pagar pedágio em todas as pontes, e que as pontes pertencem todas ao mesmo barão de armadura digital.
Resta a pergunta que o release não responde, e que o jornalismo de bajulação jamais fará. A senhora do programa de auditório, que construiu fortuna defendendo autenticidade, vulnerabilidade e voz própria, agora coloca essa voz dentro do cofre de uma das três empresas mais poderosas do planeta. O público que ela jurou empoderar virou inventário. E o conselho que ela costumava dar, viva sua melhor vida, encontre seu propósito, agora vem patrocinado, geolocalizado e otimizado para conversão. O microfone continua o mesmo, mas quem segura o fio mudou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.