A Amazon anunciou a aquisição da Globalstar, operadora de satélites de órbita baixa, para expandir o que chama de Amazon Leo Satellite Network. Em linguagem limpa, isso significa que a maior loja do planeta decidiu que vender produtos, dominar a computação em nuvem, controlar um dos maiores jornais do Ocidente e operar o maior sistema logístico privado da história ainda não era suficiente. Agora ela quer ser dona do canal por onde a informação trafega antes mesmo de tocar o solo.

Convém lembrar que a corrida por satélites de órbita baixa já tem um líder claro, alguém que apostou nisso quando todo o establishment aeroespacial ria da ideia e que hoje opera milhares de satélites fornecendo internet a zonas de guerra, regiões remotas e países cujos governos tentaram desligar a internet do povo. A diferença entre quem constrói infraestrutura para libertar e quem constrói infraestrutura para capturar não está na tecnologia, está na intenção. E intenções se revelam pelo histórico, não pelo comunicado de imprensa.

O histórico da Amazon no trato com informação é, digamos, instrutivo. Uma empresa que remove livros de Kindles já comprados pelos clientes, que opera um sistema de vigilância doméstica vendido como campainha inteligente, que entrega dados de câmeras Ring à polícia sem mandado judicial e que possui um jornal usado sistematicamente como arma editorial contra dissidentes políticos agora terá, se tudo correr como planeja, uma constelação orbital própria. É como entregar a um cobrador de impostos medieval não apenas o mapa de todas as estradas, mas a propriedade das próprias estradas. O viajante que passa nem percebe que cada passo seu é registrado.

A aquisição da Globalstar não é um movimento de inovação; é um movimento de integração vertical levado às últimas consequências. Do servidor ao satélite, do armazém ao último quilômetro, do produto físico ao dado que você gera ao comprá-lo. Existe uma diferença civilizacional entre construir uma rede de comunicação porque você acredita que a humanidade precisa de acesso irrestrito à informação e construir uma rede de comunicação porque ela é a peça que faltava no seu ecossistema de captura. A primeira é prometeica. A segunda é panóptica.

O mais revelador, porém, é o silêncio regulatório. Nenhum órgão antitruste do planeta parece minimamente preocupado com o fato de que uma única corporação está prestes a controlar infraestrutura de nuvem, infraestrutura logística, infraestrutura editorial e agora infraestrutura orbital. Se fosse uma empresa de petróleo comprando refinarias, portos e postos de gasolina simultaneamente, já haveria audiências no Congresso. Mas como vem embrulhada em linguagem de "inovação" e "conectividade para todos", a concentração de poder passa como se fosse filantropia. O velho truque: disfarçar monopólio de missão civilizatória.

O céu, que durante milênios foi símbolo da liberdade que nenhum tirano conseguia alcançar, agora tem dono. Ou melhor, tem candidatos a dono. A diferença entre eles é o que vai determinar se a próxima geração terá internet livre ou internet concedida. E concessão, como qualquer estudante de história sabe, é apenas a palavra educada para controle.

Com informações da Business Wire. A análise e opinião são do O Algoz.