A Amend Cosméticos apresentou quatro novos produtos no Líderes da Perfumaria, evento que reúne o setor para mostrar o que está acontecendo longe das mesas de reunião do Planalto. Pronto. Essa é a notícia, e é muito mais importante do que parece. Porque enquanto o noticiário econômico se entope de pautas sobre "política industrial", "nova indústria Brasil", "fundo garantidor" e outras fantasias semânticas que o governo vende como desenvolvimento, uma empresa privada, com capital próprio, risco próprio e responsabilidade própria, simplesmente criou quatro produtos novos para oferecer a quem quiser comprar. Sem edital. Sem subsídio. Sem comitê de governança com representante do Ministério do Desenvolvimento e da CUT.
Olha, o que acontece num evento como esse é a coisa mais subversiva que existe numa economia infestada de burocracia, e é justamente por isso que quase ninguém percebe a beleza do arranjo. Centenas de empresas concorrentes reunidas para mostrar o que fizeram, trocar informações, observar o que o outro fez melhor, descobrir o que o consumidor aprovou e o que rejeitou. Isso é o sistema de preços funcionando em tempo real, é a descoberta coletiva operando sem plano central, é o conhecimento disperso entre milhares de pessoas se articulando sozinho para produzir algo que nenhuma mente isolada jamais conseguiria desenhar. E a resposta do mercado virá rápida. O produto bom sobrevive. O produto ruim some. A empresa competente cresce. A preguiçosa encolhe. Tudo isso sem um único decreto.
Quer dizer, compare o que a Amend faz com o que o Estado brasileiro fez nos últimos anos na mesma indústria. Enquanto empresas privadas inovam, o poder público inventou MP do perfume, CBS sobre cosméticos, aumento de IPI para produtos de higiene, taxação extra de importados, regulação sanitária que atrasa lançamentos em meses, e ainda teve a coragem de chamar isso tudo de "proteção ao consumidor". Me diz uma coisa, quem protege o consumidor de um xampu ruim? É a Anvisa ou é o fato de que, se a Amend lançar uma porcaria, a concorrente ao lado vai lançar algo melhor na semana seguinte e o consumidor migra? A resposta é óbvia para quem observa, e ofensiva para quem depende de cargo público para existir.
Agora siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quando o governo anuncia "pacote para a indústria cosmética", quem ganha? O pequeno empreendedor que monta uma fábrica no fundo do quintal? Não. Ganha o conglomerado multinacional que tem departamento jurídico para desenhar o projeto, advogado para aprovar no BNDES, lobista para garantir o enquadramento fiscal, e consultoria para fazer a prestação de contas. O subsídio vira barreira de entrada. O incentivo vira privilégio. O que se apresenta como "política de desenvolvimento" é, na prática, um cartel institucionalizado onde o contribuinte paga para que alguns escolhidos vendam mais caro a todos os outros. Isso não é desenvolvimento, é pilhagem com papel timbrado.
E existe uma dimensão cultural nessa história que ninguém comenta. Um setor como o de perfumaria e cosméticos sobrevive porque as pessoas querem se sentir bem, querem cuidar de si, querem presentear alguém, querem uma pequena dose de beleza no meio do caos cotidiano. É uma indústria que atende a um desejo antigo, quase primitivo, e por isso mesmo é uma das que mais resiste às crises. Nenhuma recessão acabou com o setor, nenhuma inflação o destruiu, nenhum plano econômico esquisito o matou. Porque o desejo humano pelo cuidado e pela beleza é anterior a qualquer projeto de país. E quando o Estado tenta se meter nisso, com taxação moralista ou regulação paternalista, está agredindo algo que não entende e nunca vai entender. Empresa cuida do cliente porque depende dele para sobreviver. Governo não cuida de ninguém porque não depende de ninguém, exceto da próxima eleição.
Portanto, quando você ler essa notícia aparentemente banal sobre uma empresa de cosméticos apresentando quatro lançamentos num evento setorial, entenda o que está lendo de verdade. É um recado silencioso, discreto, quase tímido, de que o país continua funcionando onde o governo ainda não conseguiu atrapalhar. É a prova cotidiana de que riqueza não se decreta, inovação não se planeja, e progresso não precisa de ministério para acontecer. Precisa apenas de gente disposta a arriscar o próprio dinheiro, a competência para transformar risco em produto, e a liberdade para testar o produto no mercado. Tudo o mais é ruído. A Amend mostrou quatro lançamentos. O Planalto mostrou quatro PECs. Adivinha qual dos dois vai gerar emprego de verdade no próximo trimestre.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.