A American Airlines anunciou que vai cobrar mais caro por bagagem despachada nas tarifas básicas. A justificativa é o aumento no preço do combustível. Parece razoável, quase simpático, o tipo de coisa que você lê e pensa "que pena, é a vida". Mas antes de aceitar a narrativa, observe o padrão: Delta aumentou. United aumentou. Southwest aumentou. JetBlue aumentou. Todas juntas, todas com a mesma fala, todas apontando para o mesmo vilão, o querosene. Quando concorrentes de um setor oligopolizado tomam a mesma decisão ao mesmo tempo, com o mesmo enquadramento público, a palavra correta não é coincidência. A palavra correta é coordenação.
O preço do combustível é real. Ninguém nega que o querosene de aviação subiu. Mas o combustível também sobe em anos em que as aéreas registram lucros recordes, e nesses anos as taxas não caem. O custo é sempre repassado; a economia, nunca. É a assimetria perfeita: o risco operacional é socializado no preço do bilhete, e o lucro é privatizado nos dividendos. Siga o dinheiro até o fim e você vai encontrar, no final da trilha, o acionista confortável que nunca despachou mala na vida.
A teoria do custo como justificativa para aumento de preço tem uma característica conveniente: ela encerra o debate antes de começar. Quem vai argumentar contra o preço do petróleo? Ninguém. O custo é o escudo perfeito, porque é real o suficiente para parecer honesto e vago o suficiente para cobrir qualquer margem extra embutida. O que ninguém pergunta é quanto desse aumento vai de fato para o combustível e quanto fica como receita acessória, aquele tipo de receita que não aparece na comparação de tarifas no buscador de passagens, só aparece no balcão, quando você já comprou. A resposta, se alguém cruzasse os relatórios trimestrais com disciplina, provavelmente seria constrangedora para todos os envolvidos.
O modelo da "tarifa básica" foi a maior inovação da aviação comercial nas últimas duas décadas. Não na aeronave, não no conforto, não na pontualidade. Na segmentação de preço. Vender o assento pelado e cobrar por cada elemento que antes estava incluso na viagem: bagagem, escolha de assento, embarque prioritário, alimentação. É o modelo da navalha: venda o cabo barato e cobre pela lâmina pelo resto da vida. Funciona porque o ser humano ancora no número mais baixo que vê primeiro e só percebe o custo real quando já está no balcão com a mala na mão. Aí não tem volta, e eles sabem disso desde o início.
O que ninguém no setor vai dizer em voz alta é que a consolidação da aviação americana, produto de décadas de fusões aprovadas por reguladores que repetiram o mantra de que "a competição garantiria os preços", criou um oligopólio tão estreito que a concorrência real praticamente não existe nas rotas principais. Quando quatro empresas controlam mais de oitenta por cento do mercado doméstico, a taxa de bagagem não é política comercial. É tributo. O romano que pagava pedágio para usar a estrada de um senador local entenderia a situação sem precisar de nenhuma explicação adicional.
No fim das contas, a notícia é banal: empresa cobra mais. O que não é banal é a estrutura que permite que todas as empresas de um setor cobrem mais ao mesmo tempo sem que ninguém responda por isso. Nos manuais de teoria econômica, esse arranjo tem um nome preciso. Nos comunicados de imprensa das companhias, tem uma história sobre combustível. O passageiro que despacha a mala paga os dois.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.