A AMTD, holding financeira de Hong Kong que poucos brasileiros conseguem situar no mapa do capitalismo global, acaba de fechar a aquisição de cinquenta por cento do Ritz-Carlton Perth por setenta e dois milhões de dólares. O hotel fica encravado no Elizabeth Quay, complexo imobiliário que virou vitrine da Austrália Ocidental para o capital asiático. O número parece grande para quem ganha em real, mas é troco no contexto: a outra metade já estava em mãos do mesmo grupo, e o que se viu agora foi apenas a consolidação de um ativo que, na prática, já estava no bolso.

Olha, quando uma holding asiática compra meio hotel de luxo em moeda forte, a pergunta que ninguém faz na coluna econômica é a mais elementar de todas. De onde vem esse dinheiro. Não estou falando de origem criminal, embora a opacidade dos conglomerados de Hong Kong dê pano para manga. Estou falando de algo mais profundo: nas últimas duas décadas, os bancos centrais do planeta inteiro inundaram o sistema com liquidez artificial, juro negativo, expansão monetária sem precedente histórico. Esse dinheiro precisou ir para algum lugar. E foi. Foi para tijolo de luxo em Perth, em Londres, em Vancouver, em Manhattan, em Lisboa.

O que se vê é uma transação imobiliária. O que não se vê é que essa transação é o ponto final de uma cadeia que começa na impressora do banco central, passa pelo crédito barato concedido a quem já tinha relacionamento bancário, vira aquisição de ativo real, e termina inflacionando o preço de tudo que é escasso e tangível para todo mundo. Enquanto isso, o assalariado australiano, o brasileiro de classe média, o americano da periferia, esses descobrem que a casa própria virou item de catálogo de luxo. Não é coincidência, é mecânica monetária pura.

Há ainda o ângulo geopolítico que a manchete trata como detalhe técnico. Hong Kong já não é a Hong Kong de dez anos atrás. O capital que sai de lá hoje carrega a marca de um regime que entendeu cedo o jogo do soft power imobiliário. Comprar hotel de bandeira americana em solo australiano é comprar presença, é comprar influência, é comprar uma cadeira na mesa onde se decide quem manda na Ásia-Pacífico. A Austrália, que se autoproclama parceira estratégica do Ocidente, vai entregando ativo simbólico após ativo simbólico porque o curto prazo do dólar entrando fala mais alto que qualquer prudência de longo prazo.

E o Ritz-Carlton, marca americana operando hotel australiano com capital chinês de Hong Kong, é o retrato perfeito do mundo que se construiu desde duas mil e oito. Bandeira do Ocidente, propriedade do Oriente, financiamento da impressora, conta paga por quem nunca pisou na lavanderia do hotel. Chamam isso de globalização integrada. O nome correto é redistribuição silenciosa de propriedade dos produtivos para os bem posicionados.

Me diz uma coisa. Quando a próxima crise de liquidez chegar, e ela chega sempre, quem você acha que vai ficar com o ativo real e quem vai ficar com o prejuízo contábil. O hotel continuará de pé em Perth. O dinheiro impresso para comprá-lo evaporou no caminho. E a conta dessa evaporação está sendo paga, em silêncio, por quem nunca foi consultado sobre nada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.