A Amtech Systems, fabricante americana de equipamentos para a indústria de semicondutores, anunciou Guy Shechter como seu novo presidente e diretor de operações. O comunicado tem aquele tom solene das notas corporativas que fingem ser jornalismo, cheio de "vasta experiência" e "visão estratégica", como se o sujeito fosse desembarcar com uma maleta de soluções para um setor que vive de muletas estatais há pelo menos três décadas. Quer dizer, ninguém vira COO de uma empresa de semicondutores em 2026 sem entender que o produto principal não é o equipamento, é o relacionamento com Washington.
Olha, a indústria de semicondutores nos Estados Unidos não é mais um setor de mercado livre desde que o CHIPS Act despejou cinquenta e dois bilhões de dólares no colo de quem soubesse preencher formulário. A Amtech, que vende fornos de difusão, sistemas de polimento e máquinas de processamento de wafers, está exatamente no ponto em que o subsídio se transforma em pedido de compra. Cada bilhão que o contribuinte americano financia para a Intel, a TSMC ou a Micron construírem fábricas em Ohio e Arizona vira encomenda potencial para fornecedores como ela. Trocar o COO neste momento não é decisão técnica, é posicionamento político.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que executivos são contratados pela competência operacional? O cargo de presidente e COO numa empresa que depende setenta por cento de capex induzido por governo é, na prática, o cargo de lobista-chefe disfarçado de operador. Shechter chega com currículo que o mercado financeiro vai ler como "experiência em escala", mas que na verdade significa "sabe transitar entre comitês federais, agências de fomento e conselhos de administração que precisam justificar bônus". O título engana, a função é outra.
E aqui está o ponto que ninguém da imprensa especializada vai tocar: o boom dos semicondutores americanos é uma bolha financiada com dinheiro impresso e dívida pública que ultrapassou trinta e seis trilhões de dólares. Quando os juros voltarem a apertar, quando o próximo Congresso descobrir que o CHIPS Act não entregou nem metade da capacidade prometida, quando as fábricas ficarem semivazias porque a demanda real não acompanhou a oferta subsidiada, empresas como a Amtech vão descobrir que o presidente brilhante de hoje é o bode expiatório de amanhã. Já vimos esse filme nos anos setenta com a indústria automobilística, nos anos oitenta com a aeroespacial, nos anos dois mil com a energia solar. A trama nunca muda, só os atores.
O que se vê é uma nomeação executiva rotineira, anunciada em terça-feira, esquecida na quarta. O que não se vê é o mecanismo silencioso pelo qual uma empresa de equipamentos industriais se reposiciona para extrair valor de um programa de subsídios que distorce preços, infla salários executivos, premia conexões políticas e pune quem ainda tenta operar segundo a velha lógica do cliente que paga porque quer, não porque o governo mandou. O capitalismo de compadrio não precisa mais se esconder; agora distribui press releases.
Shechter pode ser ótimo, péssimo ou medíocre. Não importa. O que importa é que o palco onde ele vai atuar foi construído com dinheiro confiscado de gente que nunca comprou um wafer na vida e nunca vai comprar. E quando a conta chegar, e ela sempre chega, o nome dele estará no rodapé de algum relatório anual explicando por que os números não fecharam. A peça segue, o ingresso é caro, e a plateia continua aplaudindo o truque sem perguntar quem pagou pelos coelhos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.