San Francisco tem um dos impostos municipais mais altos dos Estados Unidos. Tem um orçamento de obras públicas que envergonharia capitais de países europeus. Tem departamentos, subcomitês, forças-tarefa e coordenadorias dedicadas à infraestrutura urbana. E tem, também, ruas tão destruídas que uma empresa privada achou necessário lançar um programa para mapear os buracos que a prefeitura não consegue nem contar. A Waymo, conhecida por colocar carros sem motorista nas ruas da cidade, anunciou parceria com o Waze para identificar, registrar e compartilhar com os departamentos de transporte a localização exata de cada cratera no asfalto. Já encontraram cerca de 500 só nas primeiras varreduras nas cidades do programa piloto, que inclui ainda Los Angeles, Phoenix, Austin e Atlanta. Quinhentos buracos. Que o poder público não sabia onde estavam.
Pense bem no que isso significa. O governo tem o monopólio das ruas. Cobra por elas via impostos, pedágios, taxas de licenciamento e uma centena de outras formas criativas de esvaziar o bolso do contribuinte. Em troca, deveria manter a infraestrutura em condições. Não mantém. E a razão não é misteriosa: quem não tem concorrente não tem incentivo para melhorar. A prefeitura de San Francisco não perde contratos se a Rua Fulano estiver destruída há seis meses. Não perde clientes. Não vai à falência. Os impostos continuam chegando independentemente do estado do asfalto. O servidor público responsável pelo setor continua recebendo salário, benefícios e plano de aposentadoria enquanto os motoristas trocam os amortecedores todo semestre. É um sistema que foi arquitetado, sem que ninguém planejasse isso explicitamente, para não funcionar.
O que a Waymo fez foi usar seus veículos autônomos, equipados com sensores de altíssima precisão para navegar por ruas complexas, para coletar algo que estava disponível para qualquer um olhar: a informação de onde o asfalto está destruído. Essa informação estava distribuída por milhões de motoristas, passageiros e pedestres que cruzam esses buracos todo dia. Estava nos amortecedores quebrados, nas reclamações de vizinhança, nas fotos postadas em redes sociais. Dispersa, fragmentada, inútil para a prefeitura porque não havia mecanismo nenhum para agregá-la e convertê-la em ação. O mercado criou esse mecanismo porque tinha incentivo para criá-lo. O governo não criou porque não tinha, e nunca terá, enquanto o monopólio durar.
O Waze for Cities, plataforma gratuita para uso pelos departamentos de transporte, vai cruzar os dados coletados pelos veículos da Waymo com os relatos dos usuários do aplicativo, criar um mapa em tempo real das condições do asfalto e entregá-lo de bandeja para os gestores públicos. Quer dizer, a iniciativa privada não apenas identificou o problema que o governo deveria ter identificado, como ainda desenvolveu a solução, testou em campo, integrou com uma plataforma existente e vai disponibilizar sem custo para quem deveria ter feito tudo isso com o dinheiro público que já arrecadou. Em algum momento alguém vai fazer a pergunta que ninguém quer responder: para que serve o departamento de obras, exatamente?
Tem uma ironia específica nessa história que merece ser saboreada com calma. San Francisco foi durante anos o laboratório vivo da ideia de "cidade inteligente": sensores urbanos, dados em tempo real, governo conectado, infraestrutura gerenciada por algoritmos. Bilhões foram prometidos, conferências foram realizadas, consultores foram contratados. O resultado prático você já sabe, porque uma empresa privada precisou mapear os buracos do asfalto em 2026. A cidade que abrigou a elite tecnológica do mundo inteiro, que virou símbolo global de inovação, que taxa empresas e residentes com uma agressividade fiscal que faz outros municípios parecerem paraísos, não consegue executar o serviço mais básico que qualquer prefeitura do interior do Brasil ao menos tenta simular. Mas tem comitê para isso, pode ter certeza.
O que este episódio revela não é uma história sobre tecnologia. É uma história sobre accountability, ou melhor, sobre a ausência dela quando o prestador de serviço não pode ser trocado. O mercado resolveu o problema de mapeamento não porque é mais inteligente que o governo, mas porque tinha razão para resolver: a Waymo precisa que as ruas sejam transitáveis para que seus carros operem, o Waze precisa de dados precisos para que seus usuários confiem no aplicativo, e ambos ganham reputação ao entregar algo tangível. O governo de San Francisco não ganha nada com buracos tapados que já não teria sem eles. O incentivo é diferente, o resultado é diferente, e fingir que isso é coincidência é a definição operacional de desonestidade intelectual. O buraco na rua é o espelho do buraco no sistema. Nenhum dos dois vai ser tapado por decreto.
Com informações da ZeroHedge, TechCrunch e Waymo Blog. A análise e opinião são do O Algoz.