Em 2025, apenas cento e vinte e três mil contratos de leasing de veículos elétricos chegaram ao fim nos Estados Unidos. Em 2026, esse número deve mais que dobrar, beirando trezentos mil. Em 2027, dobra de novo, passando de seiscentos mil. É a maré que sobe lentamente até virar tsunami, e quem estiver de pé na praia vendo o horizonte vai perceber que o preço dos elétricos, esse totem intocável da religião climática, finalmente vai obedecer à mesma lei gravitacional que rege qualquer mercado: oferta abundante derruba preço, ponto final.

Convém lembrar como chegamos aqui. O carro elétrico foi vendido ao público ocidental como salvação planetária, e o Estado, sempre generoso com o dinheiro alheio, despejou subsídios, créditos fiscais, isenções e empurrões regulatórios para que as montadoras produzissem em escala antes que a demanda real existisse. O leasing virou o instrumento perfeito desse arranjo, porque permitia ao consumidor andar de elétrico sem assumir o risco de revenda, e permitia à montadora empurrar volume sem precisar enfrentar a verdade do mercado secundário. Adiamento de realidade, com juros embutidos.

Pois bem, a realidade chegou. Esses contratos vencem, os carros voltam para os pátios, e as concessionárias se veem diante de um estoque de elétricos usados crescendo em progressão geométrica enquanto a demanda do consumidor comum continua tímida. A consequência é uma só, e nenhum comunicado de relações públicas vai conseguir disfarçá-la: depreciação acelerada, preços despencando, e o sujeito que comprou zero quilômetro pagando o pato da queda no valor residual. O entusiasta que se sentia parte de uma vanguarda moral descobre, tarde demais, que estava apenas servindo de cobaia financeira.

Há ironia deliciosa em tudo isso. O elétrico foi projetado como artigo aspiracional, símbolo de pertencimento à classe esclarecida, garantia de virtude exibida no para-choque. Agora, esses mesmos carros vão parar nos lotes de usados, ao alcance do mecânico, do entregador, do trabalhador da periferia, justamente o público que os ideólogos da transição energética sempre trataram com paternalismo. O mercado, esse organismo teimoso que ninguém consegue domar por decreto, está prestes a democratizar o elétrico não pela bondade do regulador, mas pelo simples fato de que produto demais sempre acaba virando barganha.

Resta o detalhe inconveniente que ninguém da indústria gosta de mencionar. Bateria não é eterna, e o comprador do usado vai descobrir, num horizonte de poucos anos, que substituir o pacote energético custa quase o valor do próprio carro. O elétrico barato de hoje pode virar a sucata cara de amanhã, e o ônus dessa engenharia financeira mal feita não recairá sobre o executivo que assinou a campanha publicitária, nem sobre o burocrata que desenhou o subsídio, mas sobre o sujeito que apenas queria um meio de transporte acessível. Quando o Estado força uma tecnologia mercado adentro antes do tempo, alguém sempre paga, e raramente é quem deveria.

Sobra, no final, uma lição que se repete desde a invenção do dinheiro: nenhuma política industrial sobrevive ao confronto com a aritmética de longo prazo. Os preços vão cair, os elétricos vão se popularizar, mas pelos motivos errados, no momento errado, e às custas de quem confiou na promessa errada. A liberdade econômica teria entregue o mesmo resultado mais barato, mais devagar e sem traumas. Mas isso, claro, não rende manchete bonita em conferência climática.

Com informações da The Verge. A análise e opinião são do O Algoz.