A reportagem do Valor descreve, com aquela delicadeza típica de quem precisa manter o convite para os almoços de Brasília, que os dias de "jogar parado" do senador Flávio Bolsonaro acabaram. Traduzindo do dialeto centrão para o português dos mortais, isto significa que o filho zero um percebeu, depois de quase sete anos de mandato, que cadeira de senador é cargo de trabalho, não trono hereditário. E percebeu tarde, justamente quando a outra ponta do espectro reorganiza a máquina e volta a aparecer competitiva nas pesquisas. O sujeito gastou o capital político da família apostando que o vento bolsonarista sopraria eternamente, e agora descobre que vento, em política, é a coisa menos confiável do universo, perde só para promessa de ministro do Planejamento.
Olha, há algo profundamente revelador no fato de a imprensa precisar publicar uma análise inteira para informar que um parlamentar terá, finalmente, que parlamentar. Isto diz menos sobre Flávio e mais sobre o Congresso brasileiro, esta entidade onde a regra não escrita é que esforço é deselegante e produção legislativa é coisa de quem não tem padrinho. O Centrão, que opera segundo a lógica fria do varejo eleitoral, não está descobrindo nada de novo: está apenas atualizando a planilha. Se Lula sobe, a cotação dos satélites bolsonaristas cai, e quem não entrega trabalho de base começa a ser tratado como passivo, não como ativo. É a mão invisível do clientelismo fazendo o que sempre fez, separar quem rende voto de quem só rende selfie.
Quer dizer, a graça de tudo isto está no diagnóstico implícito que ninguém quer formular em voz alta. Flávio jogou parado porque podia. Tinha mandato garantido até 2027, sobrenome de marca, máquina digital herdada e a certeza, partilhada por toda a direita órfã, de que o antibolsonarismo do governo Lula faria o trabalho sozinho. Aconteceu o que sempre acontece quando alguém terceiriza o próprio sucesso para o fracasso alheio: o adversário se reorganiza. Pesquisas começam a apontar competitividade real do petismo em 2027, e de repente o senador descobre que o eleitor não é gado eterno, é cliente, e cliente sem entrega vai embora para o concorrente que ao menos finge produzir.
Vale seguir o dinheiro, ou melhor, seguir o tempo, que em política é dinheiro com juros. O custo de oportunidade de quase sete anos de mandato pouco produtivo é gigantesco, e quem paga essa conta não é Flávio, é o eleitor que confiou o assento a um nome em vez de a um trabalho. Esta é a falha estrutural do sistema brasileiro de listas abertas e fidelidades pessoais: o cargo de representação vira propriedade do representante, não compromisso com o representado. O sujeito senta na cadeira, cruza os braços, e a estrutura inteira é desenhada para que isto saia barato. Sai barato para ele. Para o país, sai pelo preço de uma legislatura inteira desperdiçada.
E há o aspecto mais delicado, aquele que os comentaristas de televisão fingem não enxergar para não estragar a noite no estúdio. A ascensão de Flávio nunca foi mérito autônomo, foi extensão de um fenômeno político específico de 2018, do qual ele é beneficiário, não autor. Quando o fenômeno arrefece, e arrefece sempre, porque emoções políticas têm meia-vida curta, o herdeiro precisa provar que tem substância própria. Ações revelam caráter, palavras o disfarçam, e sete anos de poucas ações falam mais alto do que mil postagens de indignação contra o STF. O Centrão sabe disto há décadas, é o seu negócio saber. Por isto está olhando para o senador agora com aquela frieza de quem avalia imóvel em leilão.
O fim da calmaria de Flávio não é uma notícia sobre Flávio, é uma notícia sobre o que acontece quando a maré ideológica recua e deixa exposto, na areia, quem nadava sem roupa. A direita brasileira, que precisa urgentemente de quadros próprios, formados, articulados e capazes de produzir algo além de live noturna e indignação reciclada, está descobrindo que sobrenome não governa, retórica não legisla, e vitimização não constrói maioria. Ou os herdeiros aprendem a trabalhar como se o eleitor estivesse assistindo, porque está, ou serão substituídos por quem aprendeu. O Centrão não tem ideologia, tem olfato, e o olfato dele é o termômetro mais honesto desta república. Quando ele começa a tratar você como problema, é porque você já é.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.