O porta-aviões Abraham Lincoln está fundeado no Estreito de Ormuz, seus aviões na pista, seus mísseis apontados para o vazio de uma crise que ninguém sabe como termina. Trump anunciou neste domingo o bloqueio naval completo da passagem, após o colapso das negociações com Teerã no Paquistão. Irmuz, para quem não sabe, é o gargalo geográfico por onde escoa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no planeta. Bloqueá-lo não é só apertar o pescoço do Irã; é apertar o pescoço de todo mundo que depende de energia para viver, que é todo mundo. O barril de Brent já estava em US$ 112 em março. Agora ultrapassou US$ 115 e subindo. O galão de gasolina nos Estados Unidos já custava um dólar a mais do que custava trinta dias atrás. Alguém vai pagar essa conta, e esse alguém não mora em Mar-a-Lago.

Olha, existe uma ironia que beira o teatral nesta história. Trump passou meses aplicando tarifas sobre meia humanidade, reacendeu a guerra comercial com a China, empurrou a Europa para a defensiva e projetava crescimento do PIB americano em 4% para 2026. O Goldman Sachs já havia revisado isso para 2,2% em março, antes do bloqueio. Quer dizer, a maior economia do mundo já estava desacelerando por causa das próprias políticas do homem que a comanda, e a resposta foi escalar militarmente num ponto nevrálgico do comércio global de energia. É como o carpinteiro que, ao notar que o prédio está inclinando, decide retirar mais meia dúzia de pilares para "pressionar" a estrutura a se corrigir.

Siga o dinheiro e você entenderá tudo. O preço do petróleo dispara: quem lucra são as grandes petroleiras americanas, os fundos de commodities e os países exportadores que não passam pelo Estreito, como os do Mar do Norte e a própria Venezuela, que Trump tanto diz odiar. Quem perde é o americano médio, o caminhoneiro, o agricultor que precisa de fertilizantes derivados do petróleo, o supermercado que paga frete mais caro e repassa pro consumidor. A agricultura americana já estava em patamares recordes de custo por causa do bloqueio de componentes de fertilizantes; agora vai piorar. O que se vê é o presidente firme diante de câmeras, o porta-aviões imponente no horizonte, o discurso de "nenhum navio passa sem nossa autorização". O que não se vê é o aumento na conta de luz, na bomba de gasolina, no pão de forma, que vai aparecer nas próximas semanas nas compras de quem votou nele.

A situação com o Irã já era ruim antes de qualquer bloqueio. Teerã havia restringido o tráfego pelo Estreito desde fevereiro, e o efeito já era mensurável: navios-tanque desaparecendo das rotas, seguradoras cobrando prêmios de risco absurdos, compradores asiáticos correndo para mercados alternativos. Trump herdou uma crise em andamento e, em vez de exercer a paciência estratégica que o momento exigia, optou pelo gesto grandioso e fotografável. Há impérios que caíram exatamente por isso: não por falta de poder, mas por excesso de gesticulação com poder mal calibrado. Napoleão entrou na Rússia porque vencer parecia mais fácil do que negociar. O inverno russo não se importou com o tamanho do exército.

Me diz uma coisa: o que acontece quando o país que promete "fazer a América grande novamente" bloqueia a principal artéria de energia do planeta, encarece o combustível do seu próprio povo, desacelera o crescimento interno, aliena aliados europeus que se recusam a aderir à operação, e ainda assim não obtém a rendição nuclear iraniana que prometeu? A resposta honesta é que não acontece nada de bom. O Irã não vai desmontar o programa nuclear sob pressão de um bloqueio que ele mesmo pode sabotar com drones, minas e guerrilha marítima. A negociação que fracassou no Paquistão vai precisar voltar à mesa em algum momento, mas com os preços do petróleo 40% mais altos, os mercados nervosos, a economia americana mais frágil e o prestígio diplomático americano mais gasto. Bloqueios navais não substituem estratégia. Porta-aviões não substituem política externa. E força bruta, sem objetivo claro e saída negociada, não é força: é custo.

O que está se construindo no Estreito de Ormuz não é uma vitória americana. É um impasse caro sendo transformado em espetáculo militar para consumo interno, enquanto a conta real, em dólares por barril, em centavos por galão, em pontos percentuais de PIB perdido, vai sendo distribuída silenciosamente entre pessoas que nunca viram um mapa do Golfo Pérsico. Quem controla o espetáculo não é necessariamente quem controla a situação, e a diferença entre os dois costuma aparecer na fatura do mês seguinte.

Com informações do Valor Econômico, CNN Brasil, InvestNews e Jornal de Negócios. A análise e opinião são do O Algoz.