A Alphabet voltou a ser queridinha dos analistas, e a justificativa repetida em coro é tocante na sua ingenuidade, a empresa estaria "expandindo agressivamente sua infraestrutura de inteligência artificial". Traduzindo do economês para o português, ela está erguendo galpões gigantescos cheios de chip caro em terrenos onde o imposto predial foi convenientemente perdoado, puxando energia de redes que receberam incentivo bilionário, e fechando contratos de nuvem com agências federais que pagam preço de boutique com dinheiro arrancado do sujeito que acorda às cinco da manhã para bater ponto. Chamar isso de livre mercado é o mesmo que chamar de jardinagem o ato de plantar dinheiro alheio no quintal dos outros.
Olha, toda vez que uma big tech anuncia "investimento histórico em IA", convém perguntar uma coisa simples que ninguém nas mesas de análise tem coragem de fazer, de onde sai o capital e quem assume o risco quando a aposta não voltar? A resposta verdadeira raramente aparece no release oficial. Sai da emissão de dívida que só é barata porque o banco central mantém juros artificialmente espremidos há quinze anos, sai do crédito subsidiado da agência de fomento, sai da renúncia fiscal que o município entregou de joelhos com medo de perder o anúncio para o estado vizinho. O risco, esse, fica socializado, pulverizado, distribuído entre poupadores, contribuintes e consumidores que nunca foram consultados.
O que se vê é o gráfico da ação subindo e o comunicado triunfal sobre criação de empregos qualificados. O que não se vê é a padaria que fechou porque a conta de luz triplicou para alimentar o data center vizinho, é a pequena startup que jamais nasceu porque o custo de competir com um monstro que recebe energia pela metade do preço é matematicamente impossível, é o engenheiro autônomo que virou freelancer permanente porque o mercado consolidou em três conglomerados que ditam salário, prazo e cláusula de não concorrência. A riqueza visível de Mountain View é construída em cima de um cemitério invisível de iniciativas que foram abortadas antes de existir.
Quer dizer, ninguém em sã consciência nega que a Alphabet construiu coisa relevante, busca funciona, mapa funciona, vídeo funciona, e o sujeito de blusa de moletom em Palo Alto trabalha mais que muito ministro. O problema não é a empresa existir nem ser grande, o problema é o arranjo que a tornou intocável. Quando o regulador passa a depender politicamente do regulado, quando o tesouro nacional vira cliente cativo, quando o banco central socorre o mercado sempre que a aposta da big tech ameaça azedar, deixou de existir capitalismo no sentido honesto da palavra. Sobrou um condomínio fechado de gigantes que privatizam o lucro e estatizam tudo o que dá errado.
E a análise SWOT, esse instrumento que deveria revelar fraquezas e ameaças, vira propaganda institucional travestida de método. Ameaça regulatória? Mencionam por obrigação, mas todo mundo sabe que o lobby em Washington custa menos que uma semana de receita da empresa. Concorrência? Mencionam a China para assustar o eleitor e justificar mais subsídio, nunca mencionam o garoto de dezenove anos com uma ideia melhor que foi sufocado antes de chegar ao primeiro round de investimento. Risco tecnológico? Falam de bolha como quem fala de chuva, sabendo que se chover demais o guarda-chuva sai do bolso público.
Me diz uma coisa, qual é a graça de comemorar a alta de uma ação cujo valor reflete menos a genialidade dos engenheiros e mais a habilidade dos lobistas em transformar imposto alheio em CapEx próprio? A festa é real, o champanhe é verdadeiro, só que a conta chega depois, em forma de inflação, concentração de mercado e uma geração inteira de jovens que cresceu acreditando que empreender é coisa de quem tem padrinho em Brasília ou em Washington. O preço da ação sobe, a liberdade econômica desce, e o aplauso na CNBC abafa o barulho da porteira sendo fechada por dentro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.