A Applied Materials voltou a receber afagos das casas de análise depois que o mercado de memória deu sinais de respirar. A narrativa oficial é a de sempre, recuperação cíclica, demanda por inteligência artificial, capex das gigantes asiáticas voltando ao normal, e por aí vai o teatro. Quer dizer, os mesmos analistas que recomendavam venda no fundo do poço agora descobrem que a empresa é estratégica, que está bem posicionada, que tem fosso competitivo. Que coincidência reveladora: a clarividência sempre chega depois do gráfico subir.
Olha, esse ritual se repete em cada ciclo de semicondutores desde os anos 1990. O mercado de memória, DRAM e NAND, é um dos mais brutalmente cíclicos que existe, justamente porque é um setor de capital intensivo em que ninguém consegue calcular com precisão quando o concorrente vai expandir ou contrair a capacidade. É o exemplo de livro do que acontece quando você tenta planejar produção de longo prazo em um ambiente de informação dispersa e incentivos contraditórios. Os planejadores corporativos quebram a cara, os planejadores estatais quebrariam pior, e a diferença é que os primeiros pagam pelo erro com o próprio bolso.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que a recuperação de uma fabricante de equipamentos para semicondutores é fruto da sabedoria de Wall Street? A verdade desconfortável é que essa indústria existe como existe porque Washington, Pequim, Bruxelas e Seul derramaram centenas de bilhões em subsídios cruzados nos últimos cinco anos. Chips Act aqui, fundos soberanos ali, isenção fiscal acolá, e o resultado é uma indústria global em que ninguém mais sabe qual preço reflete demanda real e qual reflete dinheiro impresso transferido por decreto para os escolhidos do momento. A Applied Materials surfa essa onda como qualquer outra fornecedora de pá em corrida do ouro patrocinada pelo Tesouro.
Siga o dinheiro e o quadro se esclarece. Os bancos de investimento que agora elevam preço-alvo são os mesmos que estruturam emissões para clientes da Applied, intermediam fusões no setor e cobram comissão de gestoras que precisam justificar exposição a tecnologia. O consenso de Wall Street nunca foi previsão honesta, é coordenação tácita entre quem ganha taxa para mover dinheiro. Quando a maré subiu, todos descobriram que sempre estiveram comprados. Quando descer de novo, vão descobrir riscos que ninguém viu, e o cidadão comum que entrou na ponta errada pagará a conta enquanto o analista escreve um novo relatório com cara séria.
Tem ainda o detalhe geopolítico que ninguém quer colocar no SWOT em letras grandes. A Applied Materials depende de um arranjo absurdamente frágil entre Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Holanda, com restrições de exportação para a China que mudam ao sabor da próxima eleição. Chamar isso de força ou fraqueza da empresa é piada, porque a variável decisiva não está no balanço dela, está no humor de burocratas em Washington e em Pequim. Investir no papel é apostar que o jogo de cadeiras geopolítico não vai virar, e essa é uma aposta política disfarçada de análise fundamentalista.
O que não se vê nessa história toda é o custo invisível. Cada dólar de subsídio canalizado para fabricantes de chips é um dólar tirado de outro setor que teria alocado o capital de forma orgânica. Cada distorção monetária que mantém os juros artificialmente compatíveis com capex bilionário em fábricas que talvez nunca rodem a plena capacidade é uma poupança alheia sendo queimada em altar tecnológico. A ação pode subir, a tese pode parecer brilhante, mas a riqueza real do mundo está sendo consumida na fabricação de uma euforia que ninguém terá coragem de chamar pelo nome até que ela termine, como sempre termina, em colapso disfarçado de surpresa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.