A análise SWOT publicada esta semana sobre a BioCryst Pharmaceuticals chega ao leitor com aquele verniz típico do mercado financeiro brasileiro, que adora vestir de "ciência" o que é, no fundo, leitura de planilha com adjetivos pomposos. Forças, fraquezas, oportunidades, ameaças. A liturgia se repete há décadas, e o resultado é sempre o mesmo: o investidor sai com a sensação de ter compreendido algo profundo quando, na verdade, apenas leu uma resenha sofisticada de balanço trimestral. A BioCryst sobe nas projeções, os analistas se entusiasmam com o Orladeyo e com o pipeline de medicamentos órfãos, e ninguém para um minuto para perguntar: de onde vem, exatamente, a receita que sustenta essa "trajetória de crescimento"?

Pois aqui está o ponto que a coluna do Investing.com não toca, porque tocar nele seria estragar a festa. Medicamento para doença rara é, por definição, produto de mercado pequeno. Mercado pequeno não paga pesquisa de bilhões. Logo, o modelo de negócio só fecha se houver um arranjo institucional que garanta preço artificialmente alto durante uma janela artificialmente longa. Esse arranjo tem dois pilares: a patente, que é monopólio temporário concedido pelo Estado, e o reembolso compulsório por sistemas públicos de saúde ou seguradoras obrigadas a cobrir o tratamento por força de lei. Tire um desses dois pilares e a "trajetória de crescimento" vira pó antes do próximo relatório.

Quer dizer, o que se vende como triunfo da inovação privada é, na prática, uma sociedade público-privada disfarçada. O contribuinte americano financia o NIH, que financia pesquisa básica, que vira pipeline da BioCryst, que cobra cinquenta mil dólares por paciente por ano de um seguro que, no fim da cadeia, ou é pago pelo Medicare ou é repassado em prêmios cada vez mais caros para o trabalhador comum. O ciclo é elegante e quase invisível: o dinheiro entra pela porta dos fundos do orçamento federal, passa por três ou quatro guichês burocráticos, e sai pela porta da frente como "lucro de farmacêutica inovadora". Olha, é o capitalismo de compadrio em sua versão mais sofisticada, com jaleco branco e gravata de cientista.

A história das farmacêuticas listadas em Wall Street é, em larga medida, a história de como se transformou descoberta científica em renda regulatória. Não há nada de errado em ganhar dinheiro curando gente, muito pelo contrário. O problema começa quando o ganho deixa de depender da preferência do consumidor e passa a depender do desenho da norma. A BioCryst não compete pelo bolso do paciente. Ela compete pela tinta do regulador, pela vírgula da bula aprovada pela FDA, pela rubrica do funcionário do Medicare que decide se aquele código de cobrança entra ou não na lista de reembolso. Esse jogo tem regras, mas as regras não são as do mercado livre. São as da burocracia sanitária, que é outro animal inteiramente.

E aqui mora a contradição que o entusiasmo dos analistas mascara. Quando uma empresa cresce porque inventou algo que o consumidor quer pagar com dinheiro próprio, esse crescimento é riqueza genuína, sinal de que o mercado validou a aposta. Quando uma empresa cresce porque conseguiu encaixar seu produto numa estrutura de pagamento compulsório, o crescimento é transferência, não criação. O PIB pode até subir, o papel pode até valorizar, mas o que se está medindo ali é a eficiência da empresa em capturar fluxo de recursos coercitivos, não em servir gente que escolheu livremente comprar. São duas coisas ontologicamente diferentes, e confundi-las é o pecado original de quase toda análise de farmacêutica feita no Brasil e nos Estados Unidos.

Resta o investidor brasileiro, que olha para o ticker da BioCryst e vê uma oportunidade. Talvez seja mesmo. Enquanto o arranjo regulatório se mantiver, enquanto Washington continuar gastando o que não tem para financiar tratamentos órfãos, enquanto o lobby farmacêutico mantiver sua influência sobre o Congresso americano, o papel sobe. Mas que ninguém se iluda quanto à natureza do que está comprando. Não é ação de empresa inovadora competindo num mercado livre. É título de renda fixa fantasiado de equity, cuja garantia última é a capacidade do governo americano de continuar tributando e endividando os seus para pagar a conta. No dia em que essa engrenagem travar, e ela vai travar, o gráfico vai contar outra história. A trajetória de crescimento dura exatamente o tempo que dura o subsídio que ninguém quer chamar de subsídio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.