A Carrier Global aparece nos relatórios financeiros como uma história de crescimento, transformação, reposicionamento estratégico, todo aquele vocabulário polido que analistas de banco usam quando precisam justificar recomendação de compra sem corar. A empresa vendeu divisões, focou em climatização, apostou em bombas de calor, e os papéis sobem porque o mercado projeta margens robustas nos próximos trimestres. Quer dizer, é a narrativa oficial. Quando você arranha a tinta, encontra outra coisa.
O que sustenta esse otimismo não é demanda espontânea de consumidores que acordaram apaixonados por bombas de calor de quinze mil dólares. É uma muralha regulatória erguida na Europa e nos Estados Unidos que está, literalmente, proibindo as caldeiras a gás, restringindo refrigerantes tradicionais, impondo metas de descarbonização aos prédios comerciais e despejando subsídios pesados em quem comprar o equipamento certo. O equipamento certo, claro, é o que a Carrier vende. Coincidência industrial, dizem os ingênuos. Coincidência que custou anos de lobby em Bruxelas e Washington, dizem os documentos.
Olha, há uma diferença abissal entre uma empresa que cresce porque inventou algo melhor e uma empresa que cresce porque convenceu o legislador a tornar ilegal a alternativa do vizinho. A primeira é capitalismo, com toda a beleza do interesse próprio servindo o consumidor. A segunda é aquele arranjo antigo, tão antigo quanto o mercantilismo, em que o palácio decide quem vende, quem compra e a que preço, e o cidadão paga a conta achando que está salvando o planeta. A Carrier hoje opera, em larga medida, no segundo modelo. E os analistas chamam isso de vantagem competitiva sustentável.
Repare no detalhe que ninguém comenta. Cada bomba de calor instalada com subsídio significa imposto cobrado de alguém que não comprou nada, repassado via burocracia para o cidadão que comprou o equipamento, descontada a fatia gorda da fabricante, da distribuidora, do instalador certificado e do consultor de eficiência energética. O emprego criado no setor é visível, fotografável, citável em discurso de ministro. O emprego destruído na padaria que não trocou o forno porque o imposto subiu, esse ninguém vê. A pequena oficina de refrigeração que fechou porque não tinha capital para se certificar nas novas normas, essa ninguém entrevista. Cresce a Carrier, encolhe a economia real, e o índice de ações sorri.
Há ainda a parte deliciosa em que o mesmo Estado que decretou a obsolescência forçada do equipamento antigo agora discute restringir os gases refrigerantes da nova geração porque, surpresa, eles também aquecem o planeta. Não é estupidez, é desenho. Cada ciclo regulatório obriga troca de frota, e cada troca de frota é faturamento garantido para meia dúzia de gigantes globais que sobreviveram às últimas três rodadas de exigências. O pequeno fabricante não sobrevive à terceira reformulação técnica obrigatória. O grande recebe ações em alta e capa de revista.
Então quando o relatório SWOT diz que a Carrier mira crescimento em meio à transformação do mercado, traduza para a língua dos vivos. A transformação é regulatória, não tecnológica. O crescimento é cativo, não conquistado. E o investidor que comprar essas ações está, no fim das contas, apostando que o Estado continuará proibindo coisas. É uma aposta razoável, considerando o estado do mundo. Mas que ninguém venha chamar isso de livre iniciativa, porque livre, ali, só está mesmo o caminho do dinheiro do contribuinte até o caixa da multinacional.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.