A Colgate-Palmolive aparece nos relatórios como uma empresa "sob pressão de custos", expressão deliciosamente vaga que os analistas de Wall Street adoram porque transforma decisão política em fenômeno natural, como se matéria-prima encarecesse por capricho do clima e não por consequência direta de anos de orgia monetária nas principais economias do planeta. Quer dizer, o sujeito imprime trilhões para socorrer banco quebrado em 2020, sustenta déficit fiscal eterno em Washington, Bruxelas e Brasília, e depois finge surpresa quando o óleo de palma, o alumínio do tubo e o frete marítimo sobem juntos. Não é pressão de custo, é a conta da impressora chegando ao balcão do supermercado.

O interessante é observar como a narrativa empresarial moderna se especializou em despersonalizar o desastre. Ninguém imprimiu nada, ninguém regulou nada, ninguém criou tarifa nenhuma, ninguém subsidiou cadeia produtiva nenhuma; simplesmente "os custos pressionaram a margem", e o coitado do CEO precisa repassar 8% ao consumidor enquanto recompra ações para sustentar o múltiplo. Olha, dá pra entender o jogo: a Colgate não está mentindo, está apenas omitindo que o repasse de preço é o último elo de uma cadeia que começou em alguma reunião do banco central com nome bonito de "afrouxamento quantitativo".

E aí entra a parte que os relatórios SWOT jamais escrevem na coluna de ameaças, embora devessem escrever em letras garrafais: o problema central de uma empresa de bens de consumo no século vinte e um não é a concorrência da Procter, não é o private label do Carrefour, não é a geração Z que escova menos os dentes. É que o dinheiro com o qual o consumidor compra creme dental virou uma promessa cada vez mais diluída, lastreada em dívida pública impagável, e nenhuma estratégia de marketing vai consertar o fato de que a classe média global está sendo silenciosamente expropriada por uma inflação que ninguém ousa chamar de imposto, embora seja o imposto mais regressivo já inventado.

Há ainda o capítulo cômico do ESG, que aparece em todo relatório anual da companhia como se fosse vantagem competitiva, quando na verdade é mais uma camada de custo regulatório empurrada goela abaixo por consultorias que vivem de assustar conselho de administração. Cada relatório de sustentabilidade da Colgate emprega um exército de gente que não fabrica creme dental, não vende creme dental e não distribui creme dental, mas que precisa ser pago com o lucro do creme dental. O acionista minoritário olha aquilo e finge entender; o consumidor olha o preço na gôndola e xinga, sem saber que metade do aumento financia auditoria de pegada de carbono em fábrica que já era enxuta antes de virar moda ser enxuta.

O ponto que escapa ao analista de banco, treinado para tratar margem operacional como variável climática, é que multinacional de consumo é o canário na mina da economia real. Quando Colgate range os dentes, não é porque o povo parou de escovar, é porque o poder de compra de bilhões de pessoas está sendo corroído pela mesma máquina que sustenta governo gastador, juro suprimido e dívida sem dono. A ação cai, o analista corta preço-alvo, o repórter escreve "pressão de custos", e o ciclo se completa sem que ninguém precise pronunciar a palavra proibida, que é confisco monetário disfarçado de política pública.

A moral da história é antiga e os relatórios trimestrais teimam em não aprendê-la: não existe almoço grátis, não existe estímulo sem ressaca, não existe socorro fiscal sem que alguém pague a conta lá na ponta, geralmente o sujeito que escolhe entre a marca premium e a marca branca no corredor de higiene. A Colgate vai sobreviver, claro, porque dente continua nascendo e cárie continua existindo; o que talvez não sobreviva, se a farra monetária continuar, é a fantasia de que se pode imprimir prosperidade sem produzir nada. Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.