O fato concreto é simples e os números são públicos. O Comerica, instituição fundada em 1849, com presença forte no Texas, Michigan e Califórnia, aceitou ser absorvido pelo Fifth Third Bancorp numa operação avaliada em torno de quarenta e cinco bilhões de dólares. Os relatórios SWOT que circulam por aí listam "sinergias", "expansão de escala", "oportunidades no Sun Belt" e outros eufemismos que a gente já decorou. O que ninguém diz, porque diria a verdade, é que o Comerica não foi vendido, foi entregue. E foi entregue porque o ambiente regulatório e monetário americano transformou o banco regional de médio porte numa espécie em extinção programada.
Olha, a história do banco regional americano nas últimas três décadas é a história de uma execução em câmera lenta. Quando o Federal Reserve passou quinze anos mantendo a taxa de juros artificialmente próxima de zero, os bancos pequenos e médios, que vivem essencialmente do spread entre captação e empréstimo, foram empurrados para tomar risco onde não tinham vocação. Compraram títulos longos do Tesouro como se fossem cofrinho, financiaram imóveis comerciais em volumes absurdos, e quando o mesmo Fed, em pânico com a inflação que ele próprio fabricou, subiu os juros em ritmo de elevador, a carteira dessas instituições virou pó contábil. O Silicon Valley Bank quebrou primeiro, o Signature foi junto, o First Republic foi engolido pelo JPMorgan em fim de semana de feriado bancário. O Comerica está apenas seguindo o roteiro.
Quer dizer, o que se vê é uma fusão "estratégica" anunciada com champanhe em Cincinnati. O que não se vê é o seguinte: durante o socorro de 2023, o Treasury e o FDIC garantiram explicitamente os depósitos acima do limite segurado dos bancos grandes e de alguns escolhidos, deixando os demais nadando contra a maré com a corda no pescoço. Quem tinha acesso à janela de redesconto privilegiada sobreviveu. Quem não tinha, foi para o moedor ou para o leilão. Os relatórios chamam isso de "consolidação saudável do setor". Eu chamo de capitalismo de compadrio com selo federal. O Fifth Third não venceu pelo mérito de servir melhor o cliente do Comerica em Detroit, venceu porque o jogo foi montado para que vencessem os já maiores.
Me diz uma coisa, quem paga essa conta? O acionista do Comerica recebe um prêmio em ações da Fifth Third e finge que ganhou. O cliente de Michigan, que escolhia o Comerica justamente porque não queria ser número anônimo num megabanco, acorda amanhã sendo número anônimo num megabanco. O empregado de agência em Dallas vira "redundância identificada nas sinergias operacionais", expressão que os consultores cunharam para não precisar dizer demissão em massa. E o cidadão americano em geral paga duas vezes: uma na inflação que financia os socorros, outra na redução de concorrência que aumenta tarifas e piora serviço. Os benefícios são privatizados, os custos são socializados, e a imprensa econômica trata tudo como se fosse a meteorologia, fenômeno natural que ninguém provocou.
O ponto mais profundo, e o que ninguém em CNBC quer tocar, é que o sistema bancário americano deixou de ser um mercado há muito tempo. Virou um cartel autorizado, com licença escassa, regulação que protege os incumbentes contra novos entrantes, e um banco central que funciona como assegurador de última instância para quem tem o tamanho certo e a relação política correta. Num mercado de verdade, instituição mal administrada quebra, instituição bem administrada cresce, e o cliente escolhe. No arranjo atual, instituição grande não quebra nunca, instituição pequena é absorvida ou liquidada conforme a conveniência de Washington, e o cliente recebe o resultado pelo correio. Chama isso de mercado quem nunca leu o que mercado significa.
O Comerica resistiu cento e setenta e cinco anos. Sobreviveu à Guerra Civil, a duas guerras mundiais, à Grande Depressão, à estagflação dos anos setenta, à crise de 2008. Não sobreviveu a uma década de dinheiro de graça seguida de aperto monetário brutal, mais uma malha regulatória que pune o pequeno e isenta o grande. Não foi o mercado que matou o banco regional americano. Foi o que se disfarça de mercado para que ninguém perceba que o mercado já não existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.