A Constellation Brands publicou números que deveriam servir de manual de economia para quem ainda acredita que política monetária é assunto de doutor. As margens da divisão de cerveja seguram o castelo, puxadas por Modelo e Corona, enquanto vinhos e destilados premium amargam a ressaca de um consumidor que descobriu, tarde demais, que o cartão de crédito tem limite e que o limite tem juro. As perspectivas, diz a empresa com aquela diplomacia que só executivo treinado em call de resultado consegue produzir, são moderadas. Tradução honesta: o americano médio está bebendo menos vinho caro porque o aluguel subiu, o ovo subiu, a gasolina subiu, e o salário não acompanhou nada disso.
Olha, ninguém precisa de planilha sofisticada para entender o que está acontecendo aqui. Quando o banco central de uma nação passa mais de uma década inundando o sistema com dinheiro barato, ele não cria prosperidade, cria a ilusão dela. As pessoas consomem como se fossem ricas, as empresas projetam crescimento como se a festa fosse durar para sempre, e os analistas de Wall Street produzem relatórios bonitos prevendo crescimento composto de dois dígitos até o fim dos tempos. Aí o juro sobe, o crédito aperta, e de repente o cidadão que comprava vinho de quarenta dólares percebe que talvez uma cerveja de seis dólares resolva o problema da semana. Não é mistério, é aritmética.
O detalhe delicioso, e quase ninguém comenta isso, é que a cerveja resistir enquanto o vinho premium afunda diz muito mais sobre a economia real do que qualquer pronunciamento oficial. Cerveja é consumo básico de classe trabalhadora, vinho premium é consumo discricionário de classe média que se imaginava ascendente. Quando o segundo desmorona e o primeiro segura, você não está vendo uma empresa com margens saudáveis, está vendo um termômetro clínico mostrando que o paciente tem febre. O mercado celebra a margem da Modelo porque é o que sobrou de pé num campo de batalha, não porque é vitória.
Me diz uma coisa, quem está pagando essa conta? O acionista que vê o múltiplo comprimir, o trabalhador da vinícola que vai perder o emprego quando a empresa decidir cortar a divisão menos rentável, o consumidor que financia tudo isso com inflação travestida de estabilidade nos índices oficiais. Os que imprimiram dinheiro durante a pandemia, os que financiaram pacote sobre pacote de estímulo, os que decretaram que dois mais dois podia ser cinco enquanto a impressora rodava, esses não aparecem no balanço da Constellation. Aparecem só no resultado consolidado, espalhado em mil pedacinhos pelo cotidiano de quem produz, vende e consome.
A lição que essa coluna de resultado entrega de graça é antiga e ninguém quer aprender. Capital saudável vem de poupança real, não de crédito fabricado em comitê. Demanda saudável vem de salário ganho, não de subsídio emitido. Empresa saudável vem de cliente que pode pagar, não de cliente que se endivida até o pescoço para sustentar o consumo que economista de governo chama de aquecimento. Quando o vento muda, quem dançou conforme a música artificial paga o preço, e geralmente quem paga não é quem tocou a banda. A Constellation vai sobreviver, é uma empresa séria com produtos que as pessoas genuinamente querem. Mas o recado dos números é claro como cristal para quem tem olhos de ver: a festa do dinheiro fácil acabou, e a conta, como sempre, vai ser dividida entre os que menos beberam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.