A CRH, gigante irlandesa do cimento que move pedra, brita e concreto por meio mundo, divulgou seu balanço mais recente com aquele perfume típico das companhias que vivem grudadas no orçamento público: receita oscilando, margens pressionadas, e a salvação anunciada com fanfarra ficando por conta de uma agenda agressiva de fusões e aquisições. Os analistas, sempre prontos a confundir movimento com progresso, classificam o resultado como "misto" e enxergam na compra de concorrentes a luz no fim do túnel. Quer dizer, o que sobra de fim de túnel quando o túnel inteiro foi escavado com dinheiro impresso e contrato de obra pública.
Olha, é preciso entender o que está acontecendo aqui. Uma empresa de cimento não cresce porque inventa uma nova forma de fazer cimento; ela cresce porque alguém em Washington, Bruxelas ou Brasília decidiu que vai gastar centenas de bilhões em infraestrutura "verde", "inteligente" ou qualquer outro adjetivo que sirva para vender a mesma velha receita de keynesianismo requentado. A CRH foi posicionada com cirurgia para mamar nas tetas dos pacotes de infraestrutura americanos, e seus executivos sabem disso melhor que ninguém. M&A neste contexto não é estratégia de mercado, é estratégia de lobby: quanto maior a empresa, maior a fatia do bolo estatal que ela consegue abocanhar.
Me diz uma coisa, desde quando comprar um concorrente endividado é sinal de força produtiva? Na economia real, aquela que existe fora dos relatórios de banco de investimento, riqueza se cria quando alguém produz algo que outro alguém quer comprar voluntariamente por preço que cubra os custos com folga. Fusões e aquisições financiadas a juros artificialmente baixos não criam um grama de cimento adicional no mundo; apenas redistribuem o que já existe, concentram poder de mercado e engordam os bônus dos diretores que tocaram a campainha do banco central na hora certa. O consumidor final paga o pato, e o cidadão comum aplaude achando que está vendo crescimento.
O ponto que ninguém quer ver é o seguinte: quanto mais o setor de construção pesada se consolida em meia dúzia de gigantes globais, mais frágil fica a economia real e mais dependente o governo se torna desses poucos jogadores. É captura regulatória vestida de relatório trimestral. Os pequenos produtores locais, aqueles que conheciam o terreno, o operário e o preço justo, são engolidos um a um por essas máquinas de aquisição que prosperam não por serem melhores, mas por terem acesso preferencial ao crédito barato e às licitações generosas. O que se vê é a CRH crescendo. O que não se vê são as cimenteiras menores que jamais existirão porque o jogo foi viciado lá na origem.
E tem ainda o teatro da sustentabilidade, esse novo dialeto corporativo que serve para justificar qualquer barbaridade desde que venha embrulhada em papel reciclado. A descarbonização do cimento virou desculpa universal para subsídio, isenção fiscal, financiamento subsidiado e regulação feita sob medida para favorecer quem já é grande. O pequeno produtor não tem departamento de ESG, não tem consultoria em Bruxelas, não tem advogado tributarista em Dublin; logo, está fora do jogo antes mesmo de a partida começar. A "transição verde" no setor de cimento é a maior operação de transferência de riqueza do contribuinte para o acionista controlador desde a invenção da impressora monetária.
No final das contas, o investidor que olha esse balanço com olhos austríacos enxerga uma coisa só: uma empresa cujo destino está umbilicalmente ligado às decisões de gente que nunca colocou cimento em obra nenhuma. Enquanto os juros continuarem politicamente determinados e os pacotes de infraestrutura continuarem brotando como cogumelo depois da chuva, a CRH vai navegar de bolha em bolha, comprando concorrente atrás de concorrente, até a próxima crise revelar que metade desses contratos era ar quente disfarçado de aço e concreto. Quem confunde isso com capitalismo não entendeu nem capitalismo, nem cimento, nem o tamanho da farsa que está sendo encenada bem debaixo do nariz de todo mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.