A coisa começa pelo absurdo. Uma fabricante de calçado de polímero, que virou febre na pandemia porque enfermeiro precisava de algo lavável e adolescente descobriu que feio também é estética, agora aparece em relatório sério de análise como se fosse caso de estudo sobre o futuro do varejo global. Olha, quando o mercado precisa de planilha SWOT para decidir se um sapato de borracha vale o preço cobrado, é porque o preço já não tem mais relação com o sapato. Tem relação com o discurso embrulhado em volta dele.

O ponto que ninguém quer encarar é simples. A empresa cresceu cavalgando uma onda comportamental excepcional, juros zerados no mundo inteiro, estímulo fiscal jorrando dinheiro na conta do consumidor americano e uma quarentena que transformou conforto doméstico em religião. Tudo isso somado durante anos, com a impressora de dinheiro ligada nos Estados Unidos, inflou margens, inflou múltiplos, inflou o ego do executivo que passou a se achar visionário quando na verdade só estava surfando vento de cauda macroeconômica. Retirado o vento, sobra o sapato. E sapato, por mais colorido que seja, compete em mercado saturado, com chinês imitando barato e marca de luxo capturando o topo.

Quem segue a trilha do dinheiro encontra a história de sempre. Recompra agressiva de ações, gestão otimizando indicador trimestral, aquisição de marca complementar com endividamento alavancado e narrativa de diversificação para justificar o que é, na prática, aposta dupla com dinheiro emprestado. Funciona enquanto o crédito é barato. Quando o juro real volta a existir, a engenharia financeira que parecia genialidade revela sua natureza verdadeira, que é apenas o velho truque de antecipar lucro futuro para inflar resultado presente. O acionista de longo prazo paga a conta depois, quando a maré baixa.

O mais revelador no exercício analítico que circula é o vocabulário usado para descrever risco. Fala-se em desafio, em vento contrário, em pressão competitiva, em normalização pós pandemia, como se a empresa estivesse passando por uma fase atmosférica e não por uma realidade econômica concreta. É a linguagem do consultor que precisa manter o cliente comprado, do analista que tem relacionamento com o departamento de relações com investidores, do corretor que ganha comissão sobre giro. Nenhum deles tem incentivo para dizer ao pequeno investidor que comprar ação de empresa de moda em ciclo de aperto monetário é, historicamente, atividade de alto risco com retorno medíocre.

Existe uma sabedoria antiga que o mercado teima em esquecer e que reaparece em cada ciclo como se fosse novidade. Modismo não compõe juros. Empresa que depende de gosto popular tem horizonte curto de previsibilidade. Quem coloca dinheiro nesse tipo de negócio não está investindo no sentido estrito da palavra, está apostando, e tudo bem apostar desde que se chame a coisa pelo nome. O problema é o pacote vendido como análise técnica que mascara a aposta de roupa de investimento, cobrando taxa de administração de quem queria poupar.

No fim, o caso serve menos como recomendação de compra ou venda e mais como retrato do estado atual da indústria de informação financeira. Um mundo onde se produz relatório sofisticado sobre qualquer ativo, com gráfico bonito e termo técnico, para sustentar a ilusão de que existe método científico onde existe apenas escolha humana em ambiente de incerteza. O investidor que entender isso, sai na frente. O que continuar acreditando que a sigla SWOT é mapa do tesouro, vai descobrir, no próximo ciclo, que o tesouro estava no bolso do gestor o tempo inteiro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.