Olha o roteiro, ele se repete com a precisão de um relógio suíço. Uma casa de análise publica relatório dizendo que a CSX, gigante ferroviária americana, está com valuation esticado, margens pressionadas, volumes estagnados e dependência preocupante de carvão num mundo que decidiu, por decreto político, que carvão é pecado mortal. O mercado finge surpresa. As ações balançam. Os comentaristas de televisão batem o martelo do óbvio como se fosse descoberta arqueológica. E ninguém, absolutamente ninguém, faz a pergunta que importa, como é que uma empresa centenária, com trilhos físicos, locomotivas pesadas e contratos sindicais engessados, foi parar em múltiplos que historicamente pertenciam ao setor de software?

A resposta está no andar de cima, naquele prédio em Washington onde se imprime dinheiro como se fosse jornal de domingo. Quando o juro real fica artificialmente esmagado por anos a fio, todo ativo na bolsa sobe, não porque vale mais, mas porque o dinheiro vale menos. O investidor, desesperado para fugir da corrosão silenciosa da inflação, empurra preço de tudo para cima, inclusive de ferrovia que carrega minério e grão a velocidade de tartaruga. Quando o ciclo vira, e ele sempre vira, o mesmo investidor olha o gráfico e pergunta, indignado, quem foi o culpado. O culpado é ele, que aceitou o jogo de cartas marcadas e agora reclama do crupiê.

Tem ainda o detalhe deliciosamente ignorado de que a CSX opera num setor regulado até a medula. Tarifas, rotas, segurança, ambiental, trabalhista, cada vírgula passa por agência federal. Isso significa que o lucro da empresa não é determinado primariamente pela engenhosidade dos seus executivos ou pela eficiência operacional, é determinado por canetadas em Washington. Quando o governo decide subsidiar caminhão via obras rodoviárias bilionárias, a ferrovia perde competitividade. Quando decreta nova regulação ambiental, o custo sobe. Quando força acordo sindical sob ameaça de intervenção, a margem encolhe. E o acionista, coitado, é o último a saber.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Boa parte da valorização recente das ferrovias americanas veio de programas de recompra de ações financiados por dívida barata, aquela mesma dívida barata que existiu porque o Banco Central decidiu manipular a taxa de juros por uma década inteira. As empresas não cresceram lucro operacional na proporção, cresceram engenharia financeira. Recompraram ações próprias, reduziram a base, inflaram o lucro por ação, e venderam isso como performance. É o equivalente corporativo de emagrecer cortando o braço, a balança mostra número menor, mas você ficou pior.

O mais cômico é o vocabulário usado pelos analistas para descrever o óbvio. Eles falam em headwinds macroeconômicos, em ambiente desafiador, em mix de carga em transição, eufemismos elaborados para dizer que a economia real está desacelerando, que o consumidor americano está endividado até o pescoço, e que ninguém sabe quanto vão durar os efeitos da farra fiscal e monetária dos últimos anos. Tudo aquilo que se vê no relatório, queda de volume, pressão de custo, dúvida sobre margem, é sintoma. A doença é o sistema monetário que premia especulação e pune produção, é o sistema regulatório que sufoca quem opera no mundo físico, e é a cultura financeira que confundiu valuation com adivinhação coletiva.

Quando a próxima rodada de relatórios chegar, e ela chegará, observe quem está vendendo nesse momento e quem está comprando. Os insiders, aqueles que conhecem a empresa de dentro, costumam ter timing curioso. Enquanto o varejista lê análise SWOT no celular durante o almoço e decide segurar a posição porque alguém na CNBC disse para segurar, o executivo já exercitou opção e diversificou. Ferrovia não voa, nunca voou, e nenhum múltiplo inflado pelos juros falsos do Banco Central vai mudar essa lei física e econômica. O trem chega na estação, mais cedo ou mais tarde, com a verdade nos vagões.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.