Veio mais um relatório de análise SWOT da Delta, com aquela liturgia de sempre, forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, como se a companhia operasse num mercado normal, sujeito às mesmas leis da padaria da esquina. Pois olha, o ponto que o analista de banco jamais escreverá é o mais óbvio: aviação comercial americana não é um setor, é um anexo do Tesouro com pintura corporativa. Cada vez que aparece uma crise, a Delta e suas irmãs estendem o pires para Washington, recebem o cheque, e voltam ao palco fingindo que o aplauso é mérito do CEO. Quando o relatório fala em "pressões do setor", ele está dizendo, em código, que a próxima rodada de pires está sendo preparada.

Quer dizer, lembra de 2001? Lembra de 2008? Lembra de 2020? Em cada uma dessas datas, o setor aéreo recebeu pacotes bilionários, com a justificativa solene de que era "estratégico demais para quebrar". Pois bem, se é estratégico demais para quebrar, é porque nunca foi um negócio de verdade, foi uma estatal disfarçada de S.A., negociada em bolsa para dar a ilusão de capitalismo. O preço da passagem que você paga não reflete o custo real de mover uma lata de alumínio entre dois aeroportos, reflete o custo subsidiado, ajustado pelo pacote da vez, garantido pelo contribuinte que talvez nunca tenha pisado num avião na vida. O sujeito de Cleveland que trabalha em turno duplo paga, no imposto, a primeira classe do executivo que voa entre Atlanta e Tóquio. Isto não é capitalismo, é mecenato fiscal.

E aí entram as tais "pressões do setor" que o relatório menciona com a delicadeza de quem evita o assunto. Combustível caro, mão de obra reivindicando salário, infraestrutura aeroportuária sucateada, regulação ambiental crescente, sindicato de pilotos pedindo reajuste, controladores de tráfego aéreo trabalhando com sistemas de quarenta anos atrás. Em qualquer indústria livre, esse coquetel de problemas resolveria-se pela seleção natural, empresa ineficiente quebra, ativos são comprados por gestores melhores, mercado se reorganiza. No setor aéreo, não. No setor aéreo, vem o secretário do Tesouro, vem o discurso sobre empregos, vem o lobby em Capitol Hill, e o circo continua. O bilhete fica mais caro, o serviço fica pior, a poltrona encolhe, e o acionista coleciona dividendos garantidos por uma plateia que nem entrou no avião.

Olha, o curioso é que a análise técnica trata a Delta como se fosse uma empresa qualquer, com beta, P/L, free cash flow, como se a ação subisse e descesse pela lei da oferta e da procura. Não sobe. A ação da Delta sobe quando o Federal Reserve sinaliza juros baixos, sobe quando o Congresso aprova alívio fiscal setorial, sobe quando o dólar fraco favorece o turismo emissivo, e cai quando a verdade ameaça aparecer. É um ativo precificado pela percepção da próxima intervenção, não pela qualidade da operação. Quem investe nisso não está apostando em aviação, está apostando na continuidade do arranjo entre Washington e o setor. É uma aposta em política, vestida de planilha. E enquanto o arranjo durar, paga dividendo. Quando o arranjo trincar, e ele sempre trinca, vem o calote disfarçado de pacote.

Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta o seguinte: se o setor é tão importante, por que não é privatizado de verdade? Privatizado quer dizer assumir o risco integralmente, sem rede, sem socorro, sem garantia implícita. Resposta: porque nenhum executivo do setor topa o jogo nessas condições. Eles querem o lucro privado e o prejuízo público, querem o bônus na alta e o bailout na baixa, querem ser empresários no relatório anual e funcionários públicos na hora do pânico. E o sistema lhes dá exatamente isso, com a cumplicidade de uma imprensa econômica que prefere repetir os jargões da SWOT a fazer a pergunta que importa, quem está pagando esta conta que nunca aparece na demonstração de resultado.

A próxima vez que você ler que a Delta "enfrenta pressões do setor", traduza mentalmente, a Delta está preparando a narrativa para o próximo socorro. E a próxima vez que você passar pelo aeroporto, com a fila de duas horas, o assento de sardinha enlatada, e a refeição que custa quarenta dólares por um sanduíche murcho, lembre-se de que tudo isso é o produto natural de oitenta anos de cartelização protegida pelo Estado. Mercado livre não produz isto. Mercado livre produz concorrência, produz inovação, produz desconto, produz qualidade. O que produz fila de duas horas e poltrona apertada é exatamente o oposto do mercado livre, é o monopólio garantido pela legislação federal, pela slot allocation nos aeroportos, pela regulação que impede companhias estrangeiras de operarem rotas domésticas, e pela certeza, válida e renovada a cada crise, de que o contribuinte cobrirá o rombo. A SWOT esqueceu de listar a maior força da Delta, ter Washington como sócio oculto. E a maior ameaça, o dia, talvez distante, em que esse sócio finalmente quebre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.