A Doximity, aquela rede social fechada para médicos americanos que virou queridinha de Wall Street durante o surto pandêmico, está apanhando feio na bolsa, e o motivo é exatamente o que qualquer pessoa minimamente desconfiada já tinha previsto: a empresa decidiu torrar caixa em iniciativas de inteligência artificial enquanto o crescimento orgânico desacelera, e o mercado, que tinha embarcado na narrativa de margens estratosféricas e expansão eterna, agora descobre que a festa exige conta paga no fim. A análise SWOT que circula entre as casas de research aponta o óbvio com a solenidade de quem descobriu a roda: gastos sobem, receita arrefece, múltiplo encolhe. Bem-vindos ao mundo real, onde dois mais dois continuam dando quatro mesmo quando o CEO usa moletom preto e fala em revolução.
O ponto que ninguém quer encarar de frente é que metade do boom das ações de tecnologia médica nos últimos cinco anos foi construída sobre uma ilusão monetária produzida em laboratório. Quando o banco central inunda o sistema com liquidez quase gratuita, qualquer projeto com PowerPoint decente vira unicórnio, qualquer prejuízo vira investimento estratégico, e qualquer empresa que cresce trinta por cento ao ano vira a próxima Apple. Tire o crédito barato da equação, suba os juros para patamar civilizado, e de repente o investidor relembra uma palavra antiga e maltratada chamada lucro. A Doximity está descobrindo isso na pele, junto com meio Nasdaq.
Tem ainda a piada de mau gosto da corrida pela inteligência artificial. Toda empresa cotada precisa, sob pena de execução pública nas redes sociais financeiras, anunciar uma iniciativa robusta de IA, contratar um chief AI officer, queimar uns trezentos milhões em GPU da Nvidia e prometer ganhos de produtividade que jamais aparecerão no demonstrativo. É o equivalente moderno da febre das pontocom, com a diferença de que daquela vez pelo menos se construía infraestrutura física que sobrou para o ciclo seguinte. Agora se constrói modelo de linguagem que vira commodity em seis meses e margem que vira pó em três trimestres.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais interessante. Quem ganha com a Doximity gastando rios de caixa em IA não é o acionista minoritário, que vê a ação derreter, nem o médico usuário, que continua recebendo a mesma plataforma de sempre com um chatbot mal treinado plugado por cima. Quem ganha é o ecossistema de fornecedores de nuvem, os consultores de transformação digital, os executivos com bônus atrelado a métricas de inovação, e a indústria inteira que vive de vender pá em corrida do ouro. O acionista é o cavalo que carrega a carroça e ainda paga pelo feno.
O mais saboroso é observar a reação dos analistas que até semana passada batiam palma para a tese de crescimento secular e agora descobrem, com cara de espanto bem ensaiado, que árvore não cresce até o céu. Rebaixam preço-alvo, ajustam projeção, escrevem relatórios sofisticados explicando o que era óbvio para qualquer pessoa que tivesse paciência de ler uma tabela de fluxo de caixa sem o filtro do entusiasmo. É o ciclo de sempre: euforia, negação, capitulação, e depois alguém aparece dizendo que ninguém poderia ter previsto. Poderia, sim. Vários previram. Foram chamados de antiquados.
A lição, que se repetirá quantas vezes for necessário até a humanidade aprender, é que valor não se decreta em call de resultados, produtividade não se compra com sigla, e empresa boa é empresa que dá lucro maior que o custo do capital. O resto é storytelling para sustentar bônus de executivo e taxa de administração de fundo passivo. Quando o vento da liquidez para de soprar, descobre-se quem estava nadando pelado, e a praia das techs médicas está começando a ficar bem mais despida do que o setor gostaria de admitir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.