A Essent Group aparece nos relatórios como o aluno comportado da sala: carteira de crédito de qualidade invejável, índice de inadimplência baixíssimo, capital regulatório de sobra, balanço que faz auditor dormir tranquilo. E mesmo assim, o crescimento de receita anda de lado como caranguejo bêbado. O analista de banco coça a cabeça e fala em "equilíbrio". O leitor atento entende outra coisa: a empresa está presa numa armadilha que ela mesma não construiu sozinha.
Seguro hipotecário privado nos Estados Unidos é um mercado que existe por causa de uma distorção. Quando o comprador não tem os vinte por cento de entrada que a prudência exigiria, entra a seguradora privada para cobrir o risco que o banco não quer correr sozinho. Bonito no papel. Só que esse mercado convive com duas estatais gigantescas, a Fannie Mae e a Freddie Mac, que dominam a securitização hipotecária americana desde a intervenção de 2008 e nunca mais saíram da tutela do Tesouro. Quer dizer, a Essent compete num jogo onde dois dos jogadores têm capital ilimitado do contribuinte e regras escritas sob medida. Crescer nessas condições não é questão de competência, é questão de licença.
O capital robusto que os analistas elogiam não é virtude espontânea da gestão, é exigência regulatória pós-crise que amarrou o setor inteiro num colete de força. A empresa é obrigada a manter reservas que tornam impossível alavancar para crescer. O regulador chama isso de prudência. O acionista chama de retorno medíocre sobre patrimônio. E o mutuário que paga o prêmio mensal nem sabe que está financiando, ao mesmo tempo, uma burocracia federal, um colete regulatório e uma seguradora que não pode crescer porque o sistema não permite. Cada dólar de prêmio carrega três tributações invisíveis.
A qualidade do crédito que se celebra hoje é fruto de uma seleção artificial. Com juros que subiram rápido e preços de imóveis nas alturas, só quem tem renda elevada e histórico imaculado consegue financiamento. A Essent segura justamente os melhores devedores possíveis, porque o resto foi expulso do mercado pela própria política monetária que primeiro inflou os preços com juros zero e depois quebrou a demanda subindo os juros para conter a inflação que ela mesma fabricou. O índice baixo de inadimplência não é mérito da seguradora, é resultado de o pobre ter sido convidado a se retirar.
O que se vê é uma empresa sólida. O que não se vê é o tamanho que ela teria num mercado livre, sem as estatais habitacionais sugando setenta por cento da securitização, sem o Banco Central manipulando a curva de juros, sem o regulador ditando quanto capital reservar para cada tipo de risco. Numa economia honesta, com moeda honesta e sem padrinhos federais, a Essent talvez fosse três vezes maior, ou talvez nem existisse na forma atual, substituída por algo melhor que ninguém pode imaginar porque o arranjo nunca permitiu surgir. O cálculo do que se perdeu é impossível, e é justamente essa impossibilidade que protege o sistema de qualquer crítica séria.
Então quando o relatório fala em "crescimento estagnado equilibrado por qualidade de crédito", traduza para o português dos vivos: a empresa está aprisionada num mercado tutelado, lucrando o que o regulador permite, crescendo o que as estatais deixam sobrar, segurando os clientes que a política monetária não expulsou ainda. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais educada, de gravata e relatório trimestral, distribuindo dividendos modestos para que ninguém faça perguntas inconvenientes sobre o arranjo. A estabilidade dos mansos é sempre o lucro dos donos do jogo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.