A Flutter Entertainment, dona da FanDuel e de meia dúzia de marcas que transformaram celular em cassino de bolso, viu analistas refazerem as contas e concluírem o óbvio: no curto prazo, o céu não é tão azul quanto a propaganda sugere. Custos de aquisição de cliente explodindo, pressão regulatória aumentando em cada jurisdição relevante, concorrência canibalizando margens e um modelo de negócio que depende de uma coisa muito específica para sobreviver, que é a permissão do governo para existir. Tira a licença, acabou a empresa. E quem dá licença, tira licença.
Olha, todo mundo finge surpresa quando uma operadora de apostas começa a sofrer, mas a estrutura do negócio sempre foi essa. Você constrói um castelo financeiro de bilhões em cima de uma autorização que o legislador pode revogar na próxima eleição, e ainda chama isso de livre mercado. Não é livre mercado coisa nenhuma. É mercantilismo digital, é capitalismo de compadrio com app bonito. A Flutter não compete por inovação genuína, compete por quem tem o melhor lobby em Washington, em Londres, em Brasília. Os pontos fortes que os analistas listam, escala global, diversificação geográfica, tecnologia proprietária, são todos secundários diante do verdadeiro ativo da empresa, que é a relação com quem assina o decreto.
E aqui entra a parte que ninguém quer dizer em alto e bom som. O setor de apostas online não cria riqueza, redistribui. Pega dinheiro de milhões de apostadores que estatisticamente vão perder e concentra na mão de acionistas que estatisticamente vão ganhar. Isso, em si, é apenas o funcionamento de qualquer cassino, e adultos têm direito de jogar seu próprio dinheiro como bem entenderem. O problema começa quando o Estado entra no esquema como sócio oculto, taxa pesado, vende a licença caro, finge regular para proteger o consumidor e na verdade está protegendo a fatia dele no bolo. A análise técnica fala em obstáculos de curto prazo, mas o obstáculo estrutural é que metade do lucro já pertence ao governo antes de chegar no acionista.
Quer dizer, quando você lê que a Flutter enfrenta ventos contrários por causa de novos tributos no Reino Unido, por causa de regulação mais dura em estados americanos, por causa de impostos extraordinários discutidos em vários países, está vendo na prática a velha lição de que quem vive de licença morre de regulação. O Estado primeiro permite, depois cobra, depois aperta, depois sufoca, e no fim diz que está protegendo o cidadão do vício que ele mesmo legalizou para arrecadar. É a hipocrisia institucionalizada em formato de política pública, e os relatórios de bancos de investimento descrevem isso com a frieza de quem comenta o clima.
A análise SWOT honesta da Flutter teria uma única linha na coluna de ameaças, e essa linha diz que a empresa não controla o produto mais importante que vende, que é a permissão para vender. Tudo o mais é detalhe operacional. Os analistas chamam de risco regulatório, eu chamo de natureza do negócio. E quando o leitor brasileiro olhar para a bet que anuncia no intervalo do futebol, com camisa de time, com influenciador no Instagram, com promessa de saque rápido, lembre que aquilo só existe porque alguém em Brasília assinou um papel. E o papel pode ser rasgado, ou pior, pode ser mantido em troca de uma fatia cada vez maior. Os ventos contrários de curto prazo são apenas a brisa que antecede a tempestade estrutural.
No fim das contas, investir em Flutter é apostar que o governo continuará sendo um sócio razoável, e governo razoável é uma categoria que existe nos livros de teoria e raramente sobrevive a duas legislaturas. A casa sempre ganha, dizem os apostadores. Mas existe uma casa maior que a casa, e essa cobra antes de todo mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.