A Globus Medical, fabricante de implantes ortopédicos focada em cirurgia de coluna, recebeu nova rodada de análise SWOT favorável e viu o papel ganhar tração no pregão. O motivo é prosaico ao ponto do constrangimento para quem ainda acredita que a bolsa se move por narrativa: a empresa vende mais cano, mais parafuso, mais placa de titânio, e ganha mais dinheiro. Não há mistério, não há feitiçaria financeira, não há um guru de Davos explicando que desta vez é diferente. Há gente com hérnia de disco precisando voltar a andar, e há uma empresa entregando a solução.
Olha, é interessante observar como o segmento de coluna virou o motor de crescimento justamente quando o resto da indústria médica patina entre regulação federal, escassez de mão de obra hospitalar e os custos crescentes daquela coisa simpática chamada compliance. Cada parafuso vendido pela Globus carrega embutido o preço da FDA, o preço dos litígios preventivos, o preço dos consultores de ética corporativa e o preço dos relatórios trimestrais que ninguém lê. O paciente paga, o plano paga, o contribuinte paga via Medicare, e ainda assim a empresa lucra. Imagine quanto lucraria, e quanto mais barata seria a cirurgia, num mercado onde o regulador ocupasse o lugar que lhe cabe, que é o canto da sala.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um plano quinquenal de qualquer ministério produziu algo comparável a um implante de coluna que funciona em milhões de corpos diferentes, em centenas de hospitais distintos, operados por cirurgiões com formações variadas? A resposta é nunca, e a razão é simples: ninguém em um gabinete sabe o que um cirurgião em Cleveland precisa às três da manhã. Esse conhecimento está espalhado, fragmentado, vivo, e só o sistema de preços consegue reuni-lo. A ação da Globus subindo é o termômetro de que, apesar de todo o esforço regulatório para sufocar a inovação privada em saúde, a inovação ainda respira.
Vale seguir o dinheiro, porque é onde a história fica honesta. O crescimento em coluna vem da fusão com a NuVasive, operação que consolidou capacidade industrial e portfólio. Consolidação, no jargão corporativo, é sinônimo civilizado para o seguinte fato: o custo regulatório nos Estados Unidos é tão alto que apenas gigantes sobrevivem. As pequenas inovadoras, que historicamente foram o motor da medicina americana, viram presas naturais. O resultado é uma indústria mais concentrada, com menos concorrência, e analistas batendo palmas para o "ganho de escala". Ganho de escala é eufemismo para barreira de entrada construída pelo próprio Estado e capturada pelos incumbentes. Quem perde é o próximo gênio na garagem que tinha uma ideia melhor de fixar uma vértebra e desistiu antes do primeiro protótipo.
Ainda assim, a tese de investimento se sustenta, e isso diz algo importante. Mesmo num mercado capturado, mesmo sob o peso de uma máquina regulatória que cresce todo ano, mesmo competindo com hospitais públicos que distorcem preço por subsídio, a empresa privada que entrega valor real ao paciente continua sendo recompensada. É a teimosia do mercado em premiar quem serve gente de verdade, e não quem serve aos critérios ESG do trimestre. Os fundos que ignoraram a moda do "investimento responsável" e simplesmente compraram negócios que resolvem problemas físicos concretos estão, surpresa, batendo os índices.
O resumo da ópera é que cada papel da Globus que sobe é um lembrete silencioso de que a economia real ainda existe debaixo da camada de teatro que cobre os mercados. Existem pessoas com dor, existem médicos que querem aliviá-la, existe uma empresa que fabrica a peça, existe um investidor que financia a fábrica e existe um preço que coordena tudo isso sem que ninguém precise pedir licença para um ministro. É feio, é imperfeito, é injusto às vezes, e mesmo assim funciona melhor do que qualquer alternativa já tentada. Quem aposta contra isso aposta contra a coluna vertebral da civilização, e perde sempre, com ou sem hérnia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.