A análise saiu morna, daquelas peças de banco que existem para não ofender ninguém, mas o número embaixo grita mais alto do que qualquer recomendação tímida: a Interactive Brokers segue abrindo contas em ritmo que envergonha qualquer corretora nacional, com margens operacionais que beiram o indecente para os padrões de varejo financeiro e uma base de clientes que cresce em dois dígitos como se a empresa tivesse descoberto petróleo. Pois bem, descobriu. O petróleo dela se chama brasileiro fugindo de banqueiro brasileiro, argentino fugindo de peronista, europeu fugindo de Bruxelas, e por aí vai. A corretora não vende ação, vende saída de emergência.
Quer dizer, repare no arranjo. Aqui dentro, o pequeno investidor abre conta numa corretora local, paga spread de câmbio absurdo para comprar BDR, leva taxa de custódia, leva come-cotas, leva imposto sobre o ganho nominal numa economia que corrói o poder de compra dele com inflação fabricada na Esplanada. Lá fora, o sujeito abre conta na IBKR, opera o mundo inteiro com corretagem que cabe num troco de café, financia posição com taxa que faz qualquer CDB tupiniquim parecer piada de mau gosto, e ainda dorme sabendo que o dinheiro dele não está sob a tutela de um regulador que toda terça-feira inventa uma circular nova. O mercado escolheu, e o mercado não pede licença a comissão parlamentar.
Olha, o crescimento que essa empresa vem entregando trimestre após trimestre não é mágica de algoritmo nem genialidade de marketing, é o velho fenômeno de quando alguém oferece um produto razoavelmente honesto num oceano de produtos manipulados. Os bancões brasileiros venderam por décadas a ficção do tesouro direto como ápice da sofisticação enquanto cobravam dois por cento ao ano em fundos que rendiam menos que poupança. A IBKR chegou, mostrou a planilha de custos numa página só, e o cidadão alfabetizado fez a conta. Não é preciso ser gênio para entender por que a base de clientes deles cresce no Brasil mesmo sem propaganda em horário nobre.
Me diz uma coisa, qual é a parte mais cômica disso tudo? É que o governo brasileiro, que adora discursar sobre soberania nacional toda vez que um americano espirra, é exatamente quem está empurrando o capital do país para fora pela porta da frente. Cada nova taxação sobre offshore, cada IOF reajustado no susto, cada tentativa canhestra de regular cripto, cada congelamento de teto de gastos seguido de waiver criativo, tudo isso é propaganda gratuita para a corretora estrangeira. O sujeito que ainda hesitava em mandar dólar para fora abre o jornal, vê mais uma medida provisória travestida de justiça fiscal, e na semana seguinte está preenchendo o cadastro de cliente internacional. A análise técnica da ação aponta crescimento. A análise política aponta o motivo.
E tem o aspecto que ninguém na imprensa econômica brasileira tem coragem de tocar, porque dependem do anúncio dos mesmos bancos que estão perdendo cliente. A diferença entre o que a IBKR oferece e o que a corretora do banco médio brasileiro oferece não é de grau, é de natureza. Lá, o cliente é cliente. Aqui, o cliente é gado a ser tosquiado entre uma taxa de administração e uma performance fee sobre benchmark que ninguém entende. O capitalismo de compadrio que se montou na praça financeira brasileira, com bancos gigantes capturando o regulador, definindo as regras do jogo e depois reclamando da concorrência estrangeira, está colhendo exatamente o que plantou. Plantou cartel, colhe fuga.
O recado dos números é simples e brutal. Numa era em que o capital tem passaporte digital e o investidor médio aprendeu a usar Google Tradutor, a corretora que oferece liberdade, transparência de custos e acesso global vence a corretora que oferece paternalismo, taxa escondida e mercado limitado. A Interactive Brokers não está crescendo porque é genial, está crescendo porque os concorrentes dela, especialmente nos países de moeda fraca e regulador forte, são monumentos à ineficiência protegida. Enquanto Brasília discute como taxar o investidor que ousou sair, Greenwich discute como acomodar o próximo milhão deles. O dinheiro sempre sabe o caminho de casa, e cada vez mais a casa do dinheiro brasileiro fica em outro fuso horário.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.