A Kenvue, aquela empresa que herdou Tylenol, Band-Aid, Listerine e o respeitável passado de cem anos da Johnson & Johnson, virou notícia pelo motivo errado. A análise SWOT que circula nos terminais de Wall Street agora aponta o óbvio que qualquer dona de casa percebeu antes do analista de banco: vender remédio genérico premium ficou caro, o consumidor está apertando o cinto e a marca, sozinha, não paga mais o aluguel do prédio em Skillman. As ações derretem, os múltiplos comprimem, e os mesmos escritórios que recomendaram compra a vinte e seis dólares agora descobrem, com cara de quem encontrou uma barata na sopa, que o negócio talvez não fosse tão defensivo quanto vendiam no roadshow.

Olha, o caso é exemplar e merece ser lido com atenção, porque ele desmonta a fantasia mais cara da economia contemporânea: a ideia de que existem ativos imunes ao ciclo, marcas eternas, fossos competitivos intransponíveis. Não existem. O que existe é poder de precificação, e poder de precificação só sobrevive enquanto o consumidor tem dinheiro no bolso e enquanto o concorrente não descobre que pode vender ibuprofeno genérico por um terço do preço dentro da rede da Walgreens. Quando o dólar perde poder de compra por anos seguidos de impressora monetária ligada no talo, o sujeito que enchia o carrinho de Tylenol agora compra a marca branca da farmácia e leva a criança com febre para casa do mesmo jeito.

Me diz uma coisa, quem foi mesmo que decidiu cuspir a Kenvue para fora da J&J em 2023? Os mesmos executivos que receberam bônus polpudos pela engenharia financeira da cisão, os mesmos bancos que cobraram fortunas pela operação, os mesmos consultores que produziram apresentações brilhantes sobre destravamento de valor. Siga o dinheiro e você encontrará uma plateia de profissionais ricamente remunerados para empurrar para o varejo um negócio cíclico travestido de defensivo. O acionista pequeno, o fundo de pensão, o aposentado que comprou no IPO acreditando estar adquirindo um pedaço da história americana da saúde, esse pagou a conta. Sempre paga.

O que se vê na manchete é a queda da ação. O que não se vê é a destruição silenciosa de capital ao longo de uma década de juros artificialmente baixos que inflaram avaliações de empresas medianas até o nível das excepcionais, criando uma geração inteira de gestores que confunde liquidez monetária com qualidade operacional. Quando a maré recua, descobre-se quem estava nadando pelado, e a Kenvue está mais para sunga curta do que para neoprene profissional. As marcas continuam boas, isso ninguém discute. O problema é que pagaram preço de marca insubstituível por um portfólio de marca substituível, e agora o mercado faz o ajuste que o balanço da J&J adiou por anos enquanto escondia a costura.

Há ainda o detalhe pitoresco da ação judicial sobre o talco, herança envenenada que veio no pacote da cisão e que continua a sangrar o caixa em acordos bilionários enquanto a empresa tenta convencer o investidor de que está focada em crescimento de margem. Crescimento de margem com passivo contingente do tamanho de um continente é como dirigir Fórmula 1 com freio de mão puxado, e o piloto jura que vai ganhar a corrida assim mesmo. A coragem é admirável, a aritmética é cruel.

A lição, para quem quiser aprender de graça antes de aprender pagando, é antiga e nunca envelhece: nenhuma marca, por mais sólida que pareça, sobrevive à combinação de gestão financeira preguiçosa, regulação cada vez mais hostil e consumidor empobrecido por inflação que ninguém quer chamar pelo nome. Quando o capital descobrir que pode render mais em renda fixa do que em ações de farmácia de prateleira, a Kenvue vai descobrir, do jeito mais doloroso possível, que a marca não vale o múltiplo. O mercado não perdoa quem confunde inércia com fosso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.