A notícia chega embrulhada em papel celofane corporativo: análise SWOT da NextEra Energy aponta perspectivas robustas de crescimento, força no portfólio renovável, oportunidades no horizonte verde. Tradução para quem não fala o dialeto dos relatórios de banco de investimento: a maior geradora de energia eólica e solar dos Estados Unidos continua a engordar porque o Tio Sam decidiu que o vento sopra melhor quando vem acompanhado de crédito tributário. E quando você raspa o verniz de sustentabilidade, encontra o de sempre, a velha aliança entre o burocrata que distribui incentivos e o executivo que sabe lobby como ninguém.
Olha, ninguém aqui está defendendo carvão fumacento por nostalgia industrial. A questão é outra, é metodológica. Quando uma empresa precisa de Production Tax Credit, Investment Tax Credit, mandatos estaduais de portfólio renovável e uma sopa de letrinhas de subsídios federais para justificar o seu modelo de negócio, ela não é uma vencedora de mercado, é uma vencedora de comitê. E vencedor de comitê tem uma característica curiosa, ele sempre precisa do comitê para continuar vencendo. Tire o subsídio e veja o que sobra do milagre.
O Inflation Reduction Act de 2022 jogou um trilhão de dólares no mercado de energia limpa, e adivinha quem foi sentar na cadeirinha mais alta da mesa. A NextEra. Os analistas que agora cantam loas ao crescimento da companhia raramente mencionam que o vento que move as turbinas é, em parte, o vento fiscal que sopra de Washington. É bonito o gráfico que sobe, mas é preciso ter coragem intelectual para perguntar se subiria do mesmo jeito sem o empurrão. A resposta honesta envergonharia o relatório.
E aqui mora a contradição que ninguém quer enfrentar. Você tem uma empresa privada, com ações negociadas, executivos milionários, dividendos pagos aos acionistas, lucros que aparecem trimestre após trimestre, e cuja viabilidade depende estruturalmente de transferências do contribuinte. Privatizam-se os lucros, socializam-se os custos, e ainda chamam isso de capitalismo verde. Não é capitalismo coisa nenhuma, é mercantilismo travestido de modernidade. O empresário do século dezessete pedia carta-patente ao rei, o do século vinte e um pede crédito tributário ao Tesouro. A roupa mudou, o jogo é o mesmo.
Os defensores do arranjo argumentam que se trata de uma externalidade, que o mercado livre não precificaria o carbono, que o subsídio corrige uma falha. Talvez. Mas note como o argumento é sempre conveniente para quem recebe o cheque. Curiosamente, jamais se questiona se o subsídio é eficiente, se o capital alocado por decreto burocrático produz mais riqueza do que produziria se livre, se as turbinas erguidas em planícies do Texas teriam sido erguidas sem o empurrão do leão. O que não se vê, o emprego que não foi criado no setor que pagou a conta via imposto, o investimento que não aconteceu porque o capital foi desviado para onde o governo apontou, esse desfile de fantasmas econômicos jamais entra na SWOT.
Resta o investidor com a pergunta que vale o dinheiro dele. A NextEra é boa empresa? Operacionalmente, sim, executa bem o que se propõe. Mas seu maior ativo não está no balanço, está no Federal Register. O dia em que o vento político mudar, e ele sempre muda, o gráfico bonito vai descobrir que o solo era areia movediça subsidiada. Quem aplaude crescimento sem perguntar pela fonte do adubo está, na prática, apostando na continuidade infinita da generosidade alheia. E generosidade alheia, ensina a história, é o ativo mais volátil que existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.