A ODDITY Tech, dona das marcas IL MAKIAGE e SpoiledChild, virou caso de estudo daquilo que o mercado financeiro insiste em ignorar a cada ciclo: empresa de consumo discricionário não é tecnologia, por mais que se vista de algoritmo e prometa revolucionar a venda de batom com inteligência artificial. A ação foi precificada como se fosse a próxima fronteira da computação, e agora o analista descobre, com cara de espanto fingido, que o crescimento desacelera, que a margem operacional sofre pressão e que o consumidor americano, surpresa das surpresas, está mais cauteloso com supérfluo num ambiente de juros altos e bolso apertado. Quem diria.

O detalhe que ninguém quer encarar de frente é o seguinte. A empresa construiu uma narrativa em torno de dados proprietários, machine learning, personalização, todo aquele vocabulário que faz fundo de hedge babar e que justifica múltiplo de quarenta, cinquenta vezes lucro. Só que, no fundo, o que ela vende é creme, gloss e sérum, mercadoria com barreira de entrada baixa, concorrência feroz, fidelidade volátil e custo de aquisição de cliente que sobe quando o Facebook e o TikTok decidem cobrar mais caro pelo anúncio. Não há algoritmo que conserte a aritmética de um mercado saturado onde a próxima TikToker pode lançar uma marca rival na sexta-feira e canibalizar sua base na segunda.

Olha, é instrutivo observar como o capital especulativo se ilude com ciclos. Nos anos noventa foi a internet. Em 2021 foi qualquer coisa que terminasse em ponto com e prometesse disruptar algo. Agora é qualquer coisa que conjugue o verbo aplicar inteligência artificial em qualquer atividade humana, do café da manhã ao funeral. O mercado paga ágio pela palavra mágica e depois descobre, com a delicadeza de um caminhão freando em pista molhada, que vender cosmético continua sendo vender cosmético, mesmo que o pedido venha via aplicativo bonitinho. O preço se ajusta à realidade, e os últimos a entrar são os primeiros a sangrar.

Me diz uma coisa, por que esse tipo de empresa estoura justamente agora? Porque o dinheiro fácil acabou. Durante quase quinze anos, os bancos centrais inundaram o planeta com liquidez artificial, juro real negativo, crédito barato, e qualquer empresa medíocre conseguia se passar por unicórnio porque o capital não tinha alternativa decente onde se abrigar. Quando a torneira fechou, o nível da maré baixou, e como sempre acontece, dá para ver quem estava nadando pelado. ODDITY não é a primeira nem será a última. É apenas mais um corpo aparecendo na areia.

Vale seguir a trilha do dinheiro. Os fundadores venderam pacotes consideráveis de ações desde o IPO em 2023, enquanto os relatórios trimestrais mantinham o tom otimista de praxe. O analista de banco de investimento, que também participou do underwriting, continuou repetindo que era hora de comprar enquanto a ação caía. O investidor de varejo, esse coitado, comprou no topo, segurou na descida e agora lê reportagem sobre análise SWOT tentando entender o que aconteceu. O que aconteceu é o que sempre acontece. A engrenagem é a mesma desde a Companhia dos Mares do Sul em 1720, só muda o roteiro e o figurino.

A lição que ninguém vai aprender, porque ninguém quer aprender, é que valor real se constrói com fluxo de caixa, vantagem competitiva durável e disciplina de capital, não com slide bonito e palavra da moda. Empresa boa não precisa convencer o mercado de que é tecnologia quando vende cosmético. Ela só precisa ser boa naquilo que faz e gerar caixa de verdade. O resto é literatura para justificar múltiplo absurdo, e literatura, como sabemos, paga mal quando o credor bate à porta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.