A Pfizer está sob a lupa dos analistas e o diagnóstico é aquele que toda empresa que viveu de privilégio regulatório teme ouvir: o relógio da patente está zerando, o caixa começa a sentir, e a tal "esteira de inovação" precisa entregar o que prometeu. A análise SWOT que circula nas mesas de operação mostra uma companhia que precisa correr atrás do próprio rabo para substituir a receita bilionária de medicamentos cujo monopólio legal está acabando. É o velho dilema de quem se acostumou com a renda garantida pelo Estado e agora descobre que renda garantida não dura para sempre.
Vale lembrar de onde veio a montanha de dinheiro que a Pfizer empilhou nos últimos anos. Não foi de um produto que conquistou consumidores em prateleira disputada. Foi de contratos governamentais firmados na histeria sanitária, com cláusulas blindadas, imunidade jurídica, compra antecipada com dinheiro do contribuinte e uma campanha de marketing público que nenhum departamento privado conseguiria pagar. O lucro foi privado, o risco foi socializado, e o produto teve demanda compulsória organizada por canetadas oficiais. Agora que a festa acabou e a patente está vencendo, a mesma empresa que surfou no privilégio precisa, pela primeira vez em muito tempo, convencer alguém a pagar pelo que ela vende.
O sistema de patentes farmacêuticas é uma das maiores construções de capitalismo de compadrio que existem. Quem defende, jura que sem o monopólio temporário ninguém investiria em pesquisa. Quem olha os números, vê que boa parte da pesquisa básica é bancada por universidades públicas, hospitais públicos e institutos públicos, e que a indústria entra na fase final, embolsa a exclusividade e cobra do mesmo contribuinte que financiou a descoberta. É um arranjo elegante: socializa o risco, privatiza o lucro, e ainda convence o público de que isso é livre mercado. Não é. Livre mercado é quando você compete pela preferência do consumidor, não quando a polícia impede o concorrente de fabricar a molécula por vinte anos.
O que está acontecendo com a Pfizer agora é simplesmente o mercado fazendo o que o mercado faz quando o privilégio expira: os preços despencam, os genéricos invadem, as margens evaporam, e a empresa precisa provar que sabe criar valor sem a muleta regulatória. Daí o pânico em torno do pipeline, das aquisições bilionárias de empresas menores, da pressão sobre a diretoria para entregar o próximo blockbuster. O monopólio legal é uma droga: enquanto dura, anestesia a necessidade de competir; quando passa, a abstinência é brutal. E a gestão da Pfizer está descobrindo, com atraso considerável, que vender remédio sem proteção policial é bem mais difícil do que vender remédio com a Receita Federal cobrando para o seu concorrente sair do mercado.
Há ainda o detalhe que ninguém na imprensa econômica gosta de mencionar. As mesmas autoridades sanitárias que carimbaram com urgência os produtos da pandemia, são as mesmas que regulam o que pode entrar no lugar agora. O lobby farmacêutico em Washington, em Bruxelas e em Brasília não tira férias. A próxima rodada já está em curso, com promessas de novos tratamentos, novas terapias genéticas, novas vacinas para coisas que talvez nem sejam doença, e a mesma engenharia regulatória trabalhando para garantir que o caixa não esvazie. O investidor que estiver atento, percebe que o jogo continua o mesmo: a aposta não é no medicamento, é na capacidade da empresa de manter o canal aberto com o governo. Quem aposta em farmacêutica grande não está apostando em ciência, está apostando em lobby.
A lição que a queda da Pfizer escancara é antiga e desconfortável. Toda empresa que cresce à sombra do Estado, eventualmente murcha à sombra do Estado, porque o mesmo poder que concede o privilégio é o que define quando o privilégio termina. Quem viveu do favor regulatório, vai morrer da reforma regulatória. O capitalismo de verdade, aquele em que o consumidor manda e o produtor serve, é implacável com quem confundiu lucro com renda garantida. E os acionistas que compraram Pfizer achando que estavam comprando inovação, estão descobrindo, no susto, que compraram uma concessão pública com data de validade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.