A Range Resources, uma das maiores produtoras de gás natural dos Estados Unidos, aparece nas análises desta semana cercada de ventos contrários, e basta olhar para o tabuleiro com olhos abertos para entender que esses ventos não sopram da natureza, sopram dos gabinetes. O gás natural foi vendido por uma década inteira como a ponte civilizada para o futuro renovável, o combustível de transição que substituiria o carvão sem comprometer a luz da geladeira. Agora, com a mesma elegância com que prometeram, os mesmos planejadores resolveram que o gás também é poluente, que o metano vaza, que a indústria precisa ser regulada até a última válvula. O investidor que apostou no discurso oficial descobre, tarde demais, que aquele que dita a transição também escolhe quem cai dela.
Olha, é fascinante observar como o preço de uma ação numa bolsa de Nova York se move ao sabor de portarias e relatórios climáticos produzidos por gente que nunca pisou num poço de extração. A Range opera principalmente em Appalachia, na região do Marcellus Shale, e produz com custo competitivo o que o mundo continua precisando, ainda que finja não precisar. O problema da empresa não é geológico nem operacional, é político. A demanda existe, o produto existe, a logística existe. O que não existe é previsibilidade regulatória, e sem previsibilidade nenhum capital de longo prazo se acomoda. O capital foge do arbítrio como o gato foge da água.
Quer dizer, sigamos o dinheiro. Quem ganha quando o gás natural americano fica mais caro de produzir, quando as restrições de exportação de GNL travam contratos, quando os fundos ESG pressionam bancos a não financiar perfuração? Ganham os concorrentes que operam em jurisdições sem essa frescura moralista, ganham os intermediários financeiros que vendem créditos de carbono, ganham as fabricantes de painel solar subsidiadas pelo mesmo Tesouro que pune o gás. Há um arranjo inteiro de beneficiários da inviabilização da Range, e nenhum deles aparece na manchete. A manchete fala em ventos contrários, como se fosse meteorologia. É contabilidade política.
O detalhe que ninguém quer enxergar é que a humanidade não substituiu o gás, substituiu a narrativa sobre o gás. Aquilo que aquece a casa do americano no inverno, que move a indústria química, que gera eletricidade quando o vento para e o sol se põe, continua sendo o mesmo hidrocarboneto de sempre. A diferença é que agora ele carrega uma culpa fabricada em conferências internacionais para justificar trilhões em subsídios para tecnologias que ainda não entregam o prometido. Enquanto isso, a Range, que faz o trabalho sujo de manter a luz acesa, vira ré num tribunal moral montado por quem nunca correu o risco de ficar no escuro.
O acionista paciente lerá esses relatórios de SWOT com o cinismo merecido. As fraquezas listadas, exposição a preço de commodity, alta dependência de pipeline, regulação ambiental crescente, são apenas eufemismos para uma só verdade: a empresa opera num mercado que deixou de ser mercado, virou casino regulado onde o crupiê troca as regras conforme a perna do dono. Os pontos fortes, eficiência de extração, posição em bacia premium, balanço relativamente saudável, importam pouco quando o jogo é definido por quem nunca jogou. E as oportunidades, exportação de GNL para Europa e Ásia, escassez estrutural global, dependem da boa vontade do mesmo governo que assina hoje o contrato e revoga amanhã por pressão de ONG.
A lição da Range Resources não é sobre gás natural, é sobre o que acontece com qualquer setor produtivo quando os planejadores decidem que sabem mais que o mercado. Hoje é o gás, ontem foi o carvão, amanhã será a pecuária, depois o aço, depois o que mais incomodar a próxima moda intelectual de Davos. Quem investe em energia precisa investir antes em ciência política, porque a planilha de fluxo de caixa não captura o risco de canetada. E o investidor brasileiro, que assiste tudo isso de longe, faria bem em lembrar que o mesmo roteiro está sendo ensaiado aqui, com sotaque tropical, mas com o mesmo elenco de burocratas que acham que sabem o que é melhor para o seu bolso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.