A Salesforce entrou naquela fase peculiar das empresas adultas que perderam o vigor original e precisam de uma nova história para contar aos acionistas. A história da vez chama-se inteligência artificial, e a companhia californiana virou laboratório vivo de um teste que o mercado inteiro está fazendo, ainda que ninguém queira admitir em voz alta. A análise que circulou nesta semana, com seu vocabulário asséptico de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, tenta organizar com método de manual de MBA aquilo que é, no fundo, uma aposta de fé. A pergunta real, que o relatório educadamente não formula, é simples e brutal, a IA generativa vai gerar receita recorrente ou vai gerar apenas custo recorrente.
Olha, há algo profundamente revelador no fato de uma empresa que cobra assinatura mensal de meio mundo corporativo precisar convencer o mercado de que ainda é jovem. A Salesforce construiu um monopólio prático no nicho de gestão de clientes através de aquisições agressivas, integrações forçadas e aquele modelo de venda que mais parece casamento católico, entrou, não sai mais. O resultado é um software que ninguém ama, que executivos juram que vão substituir, e que continua lá, ano após ano, porque trocar virou pesadelo logístico. É o tipo de fosso competitivo que economistas chamam educadamente de custos de mudança, e que na vida real significa que o cliente está preso, não fidelizado.
Quando se segue o dinheiro nessa história da reinvenção via IA, encontra-se o de sempre. Bilhões em capital de venture capital, contratos de nuvem com hyperscalers, parcerias com empresas que ganham dinheiro vendendo a infraestrutura computacional dessa nova febre, e por trás de tudo uma corrida para justificar valuations que foram inflados na era do dinheiro grátis. A questão que ninguém faz nas teleconferências de resultados é por que uma tecnologia tão revolucionária precisa de tanto subsídio cruzado, tanta venda casada, tanto desconto promocional para ser adotada. Tecnologia genuinamente útil se vende sozinha, padaria não precisa de comissão para vender pão fresco.
A tal análise SWOT, com seu ar de objetividade neutra, esconde a verdadeira fraqueza do modelo, a empresa precisa convencer simultaneamente investidores de que está cortando custos com agressividade e clientes de que está investindo pesado em inovação. Os dois discursos são incompatíveis, e o malabarismo retórico de conciliá-los gasta mais energia que o próprio desenvolvimento de produto. Enquanto isso, concorrentes menores, mais ágeis, sem o peso de uma estrutura inchada por duas décadas de fusões mal digeridas, atacam por nichos específicos com soluções específicas. O elefante dança bem no palco grande, mas tropeça nos cantos.
O ponto cego de toda essa euforia é confundir adoção com utilidade. Existe uma diferença abissal entre uma tecnologia ser usada e uma tecnologia gerar produtividade real, mensurável, sustentável. As empresas estão integrando agentes de IA aos seus fluxos porque é o que se faz em 2026, do mesmo jeito que integraram blockchain em 2018 e metaverso em 2022. Quantas dessas integrações vão sobreviver ao próximo ciclo de aperto de custos, quando os diretores financeiros começarem a perguntar o que exatamente aquele contrato de oito dígitos está entregando, ninguém quer responder agora. Resposta honesta espanta otimismo, e otimismo é commodity escassa nessa bolsa.
O investidor que entra nessa história precisa decidir se está comprando uma empresa de software com fluxo de caixa robusto e crescimento mediano, ou se está comprando uma narrativa de transformação que pode valer triplo ou nada. As duas coisas têm preço, e o preço de hoje paga pela narrativa, não pelo fluxo. Quando a narrativa não se materializar nos próximos balanços, e a história tem sido implacável em desmascarar narrativas tecnológicas no prazo de três a cinco anos, o ajuste de expectativas vai doer em quem confundiu animação de feira com modelo de negócio. A inteligência artificial pode até ser revolucionária, mas revolução, na economia como na política, costuma deixar mais cadáveres do que vencedores.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.