A Taysha Gene Therapies está naquele ponto exato em que biotecnologia deixa de ser ciência e vira aposta de cassino com gravata. A empresa desenvolve terapia gênica para a síndrome de Rett, uma doença neurológica devastadora, e o destino inteiro da companhia depende do resultado de um único ensaio clínico nas próximas semanas. Analistas escrevem relatórios SWOT cheios de gráficos coloridos como se aquilo fosse análise, quando na verdade é elegante chute disfarçado de método. Forças, fraquezas, oportunidades, ameaças, tudo muito bonito, tudo muito inútil diante de uma molécula que ou funciona em crianças doentes ou não funciona.

Olha, ninguém em sã consciência consegue calcular o preço justo de uma empresa cujo valor inteiro depende de uma variável binária a ser revelada em data marcada. Mas o mercado faz isso todo santo dia, e faz porque não tem alternativa. O preço da ação reflete o conhecimento disperso de milhares de investidores, cada um com um pedacinho de informação, intuição, palpite, esperança. É exatamente esse processo, esse cálculo descentralizado que nenhum comitê de planejadores conseguiria replicar, que permite que capital de risco flua para empresas que dez em cada dez burocratas considerariam aventuras irresponsáveis. E é graças a esse capital tido como irresponsável que crianças com doenças órfãs ainda têm esperança de tratamento.

Quer dizer, pense bem no contrafactual. Se o desenvolvimento dessa terapia dependesse de financiamento estatal, de comitês decidindo quais doenças merecem prioridade, de orçamentos plurianuais aprovados por parlamentares que confundem RNA mensageiro com mensagem de WhatsApp, a síndrome de Rett continuaria sendo sentença sem apelação. O risco que o investidor da Taysha está correndo, com olhos abertos e dinheiro próprio, é o motor que move a fronteira terapêutica para frente. Quando funciona, ele lucra muito; quando não funciona, ele paga a conta sozinho. Nenhum contribuinte é arrastado para o prejuízo, nenhum subsídio é confiscado de famílias que mal conseguem fechar o mês.

Mas siga o dinheiro até o fim da rua e a coisa fica mais interessante. A própria existência do setor de terapia gênica nos moldes atuais é resultado de uma engenharia regulatória que cria barreiras gigantescas de entrada, processos de aprovação que custam centenas de milhões, monopólios temporários via patentes e uma dependência umbilical do humor das agências sanitárias. O que se vê é a empresa inovadora apostando alto; o que não se vê é o emaranhado de regras que torna a aposta tão cara que apenas players capitalizados conseguem sentar à mesa. A regulação foi vendida como proteção ao consumidor e acabou virando privilégio de quem tem dinheiro para pagar o pedágio.

E ainda há aquele truque adicional, o de chamar de SWOT o que é, no fundo, leitura de borra de café com vocabulário em inglês. Forças e fraquezas internas são úteis, claro. Oportunidades e ameaças externas dependem inteiramente da decisão de uma agência reguladora e do comportamento de uma proteína em algumas dezenas de crianças. Toda a sofisticação do modelo cabe na ponta de uma pipeta. O analista que finge controlar essa incerteza com matriz quatro por quatro está fazendo o mesmo que astrólogo medieval, só que cobrando em dólar e usando Bloomberg.

No fim, a Taysha é menos um caso de investimento e mais um espelho. Mostra que o capitalismo de risco genuíno, aquele que aposta o próprio bolso em descobertas que podem mudar vidas, continua sendo o único arranjo civilizatório capaz de transformar desespero em medicina. E mostra também que toda vez que um burocrata se mete a dizer onde o capital deve ir, está roubando da humanidade a chance de descobrir o que ainda não sabe que precisa. A roleta gira; que pelo menos quem aposta seja quem paga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.