A Tyson Foods, gigante americana que abate, processa e empacota boa parte da proteína animal consumida nos Estados Unidos, aparece nos relatórios de análise com a divisão bovina sangrando margens e investidores nervosos. O rebanho americano está no menor patamar em décadas, o preço do gado vivo bate recordes históricos, e a empresa, espremida entre o custo do insumo e a resistência do consumidor no supermercado, vê o lucro evaporar trimestre após trimestre. O analista de Wall Street fala em ciclo, em clima, em fatores estruturais. Mas evita, com cuidado quase litúrgico, o nome do verdadeiro culpado.
Quer dizer, ninguém quer falar das tarifas. Ninguém quer falar dos subsídios cruzados que distorceram a pecuária americana por décadas, do etanol obrigatório que encareceu o milho que alimenta o boi, das regras sanitárias desenhadas em Washington por gente que nunca pisou num confinamento e que excluem concorrentes do Brasil, da Argentina e do Uruguai sob pretextos que mudam conforme a conveniência do lobby. O resultado dessa engenharia social travestida de política agrícola está agora no balanço da Tyson: oferta restrita por desenho regulatório, custo de produção inflado por mandato estatal, e um consumidor que já não aguenta pagar o hambúrguer a preço de filé.
Olha, quando o governo fecha a fronteira para a carne estrangeira sob aplausos do produtor doméstico, todo mundo aplaude no primeiro ato. O fazendeiro do Texas vende mais caro, o senador local posa para foto com chapéu de cowboy, e o jornal econômico celebra a "proteção do trabalhador americano". O que ninguém mostra é o segundo ato, três ou quatro anos depois, quando o frigorífico não consegue mais comprar gado a preço viável, quando a dona de casa troca a picanha pelo frango, quando a inflação alimentar corrói o salário do mesmo trabalhador que supostamente estava sendo protegido. A conta sempre chega, e sempre chega para quem não estava na foto.
Siga o dinheiro e a história fica clara. Décadas de generosidade fiscal com o agronegócio politicamente bem conectado criaram uma indústria viciada em proteção, incapaz de competir num mercado realmente aberto. A Tyson, longe de ser vítima inocente, foi uma das beneficiárias históricas desse arranjo. Agora, quando o ciclo vira e a estrutura que ela ajudou a sustentar lhe cobra o preço, descobre que a mesma muralha que mantinha o concorrente do lado de fora também a impede de buscar oferta lá fora quando o boi americano some. O protecionismo é uma cela com porta para dentro.
O sintoma na ação da Tyson é apenas a ponta visível do iceberg. Por baixo, está toda uma arquitetura de intervenção que durou tempo demais, que beneficiou poucos demais, e que agora cobra de todos. O investidor que olha o gráfico e pergunta "quando isso melhora" está fazendo a pergunta errada. A pergunta certa é: quanto tempo mais essa indústria vai fingir que o problema é o clima, o ciclo, ou o consumidor mal-agradecido, em vez de admitir que construiu sua própria gaiola dourada? Enquanto isso, o boi brasileiro engorda no pasto, esperando o dia em que a porta da gaiola, inevitavelmente, vai cair.
No mercado livre, o frigorífico que erra quebra e dá lugar a outro melhor. No mercado capturado, o frigorífico que erra pede socorro, ganha mais proteção, e a conta vai para o supermercado de quem não tem lobista. A Tyson não está enfrentando "desafios no setor bovino". Está enfrentando, com décadas de atraso, a fatura de tudo aquilo que decreto algum jamais conseguiu revogar: a lei da oferta e da procura.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.